Rodar, girar, colocar pra mover
Nas primeiras vezes só podia ir da barraca do
seu Elói até o fim da rua, o que não dava nem meio quilômetro. Depois de um
tempo... _Só até a esquina. Dizia a mãe aos gritos. Dai, já era quase um
quilômetro inteiro. A brincadeira preferida era apostar corrida com os colegas.
Dos tombos dessa época, nem se lembra hoje em dia. Era como se num houvessem
acontecido. Raridade em fases de aprendizado. Até que, por volta dos 13 anos já
rodava o bairro inteiro, conhecendo cada rua, becos e principalmente os morros.
Os de barro, nos quais adorava subir se imaginando em uma competição de
montanha. Adorava sentir o vento contra todo o corpo quando descia a toda
velocidade tirando as mãos do guidão e as levantando bem alto. Igual ao cristo
redentor, ou como quem quer abraçar um amigo que chegou de longe. Isso é claro,
num dos poucos morros asfaltados do bairro. Nesses momentos se lembrava do
filme “Cidade dos anjos” nos momentos antes de a mocinha morrer ao fazer o
mesmo num momento de extrema felicidade. Sabia do risco que corria. Mas poucas
coisas a faria sentir-se tão bem. Tudo por aquela sensação maravilhosa.
Ah... Delícia!
Subir na magrela e sair por
ai...
Lila nunca se esqueceria das bicicletas
que teve na vida e nem das que já desejou ter. Lembraria de cada uma delas em
detalhes. Ganhou a primeira aos cinco anos de idade. O pai quem deu. Aliás,
além da contribuição genética era a única coisa que ela lembrava ter ganhado
dele na infância. As duas bicicletas seguintes lhe foram das pelo padrasto, que
ela acreditava nunca ter andado numa em toda sua vida.
A primeira era fininha, até as rodas eram tão
finas que trepidava toda bicicleta andando nos paralelepípedos da sua rua. De
cor verde musgo metálico era bem elegante, mas não combinava com uma
pré-adolescente. A terceira parecia um sonho em duas rodas e aros negros de alumínio,
pneus grossos de montaing bike, a cor abóbora cheguei chamava toda atenção que
uma menina comunicativa necessita, com rajados de sopros finos e negros
como os guidões e a garrafinha pouco utilizada. Acordava no meio da noite só
pra ir até a varanda olhá-la mais uma vez sem acreditar que era sua.
_ Ela é muito linda... ( dizia a si mesma em pensamento).
Depois de alguns anos, muitos tombos, incluindo
capotamento, e cheia de arranhões na pintura e em sua própria pele, resolveu
deixar a pobre e já escabufada bicicleta nas mãos do namorado que a transformou
em mais uma magrela sem graça pintando-a de... Adivinha que só? Verde musgo
metálico. Não sei o que tinha com aquela cor? A tinta deveria estar em promoção
ou sei lá o que. Bonita é que não era. Moderna muito menos. Ela nem de longe
voltaria a ser aquela de antes. Então foi vendida por um mísero valor, só pra
desocupar lugar no quintal. Já tinha ganhado. A última. Que tinha um valor
especial. Mas não chegava nem aos pés da anterior. Essa realmente acompanhou
Lila nos momentos mais importantes de sua vida. Foi parceira nas aventuras e
nas fugas das investidas amorosas menos desejadas. Daqueles amigos que acabavam
se tornando chatos à altas horas da noite.
Dessa vez ninguém mais além da sorte foi
responsável por tê-la ganhado. Foi num bingo perto de casa. Foi seu dia de
sorte. E também a primeira e única vez que ganhou no jogo. Além da bicicleta,
maior prêmio do dia, levou também um rádio pequeno que podia ser ligado na
tomada ou usado com pilhas. O que era bem útil já que de vez em quando,
principalmente quando chovia, a luz acabava, principalmente na área onde
morava. Um lance de transformador que estoura com a ventania. Ganhou ainda um guarda chuvas preto. Passou a acreditar na tal
sorte de iniciante. Que só ocorre uma vez na vida. Igual a primeira vez que
meditou e entrou em Alfa. Ou pelo menos algo parecido.
De qualquer forma aquela bicicleta era a prova em quatro
rodas de que um dia teve sorte.
Um dos momentos mais importantes que passaram
juntas foi a primeira vez em que viu asfaltada a rua principal de onde morava.
Quando saiu de casa a estavam preparando, e quando voltou à noite... Nem pode
acreditar. Depois de mais de 20 anos passando por aquela rua que em dias
normais era empoeirada, e de lamacenta a alagada nos dias de chuva... Agora lá
estava o asfalto. Pulou de alegria. Mesmo não gostando muito do efeito
calorento que o tipo de calçamento provoca nos dias de sol, reconhecia que
assim seria melhor do que sair de casa com sacolas nos pés, como era de praxe
fazer para proteger os sapatos de um fim mais rápido, além de evitar os olhares
desdenhosos ao chegar à cidade, ou à escola.
Com o passar dos anos criou por aquela
bicicleta uma relação afetiva. Não seria somente mais um transporte ou objeto
qualquer. Havia um sentimento de cumplicidade. E por que não, amizade entre ela
e sua magrela?
Grávida de sete meses, agora Lila olha com
saudades, e certa dó, pra sua parceira. Tadinha! Pensa ela ao vê-la coberta com
um plástico que a protegendo da poeira, mas não a livra de ficar largada e
solitária, num cantinho do quintal sem dar nem um rolézinho a tanto
tempo. Lembra das tardes em que lavava a louça do almoço, correndo,
montava na bicicleta e sai disparada depois de ouvir a mãe, aos berros,
pergunta onde ele estava indo. Com a bicicleta já em movimento,
respondia:
_ Vou aliiii e já voooolto (também aos gritos). E saia pro
seu compromisso inadiável.
Era um momento particular. Só o fato de dizer a
mãe aonde iria poderia destruir o momento intimo entre ela, a bicicleta e o por
de sol.
Subia um dos morros do bairro. A ladeira
esburacada pelos dias de chuva deixava sobressalentes os pedregulhos encravados
no barro vermelho, ou argila em alguns pontos. Até que chegava ao local
preferido, onde podia ver as montanhas que formam a Serra de Petrópolis e
se unem as de Teresópolis, delimitam a fronteira com a baixada. Pra ela o
bairro estava num vale. Mais é conhecido como mais um bairro da Baixada.
Sentada na grama verde e novinha, sentia
a brisa fresca do fim de tarde e apreciava a vista lá de baixo. Sentia-se com
num colo de mãe. Protegida por aquela muralha mágica. Apesar de adorar ver o
mar, e mesmo que de vez em quando precisar disso, ver as montanhas era sempre uma necessidade. Ao retornar ao bairro, depois de ter se mudado pra zona Sul, se sentia
realmente em casa ao ver aquela muralha rochosa.
Degustava a beleza daquelas rápidas mudanças de
cor do céu. Com calma e atenção igual a que tinha ao comer os pudins de leite
que sua mãe preparava para a sobremesa em dias de domingo, ficava olhado o as
nuvens coloridas passando a cima de sua cabeça. O sol entrando lentamente atrás
das montanhas, o dedo de Deus apontado pro infinito, e via a primeira estrela,
que mais tarde descobriu ser um planeta. O céu ainda azul claro, escurecendo
num degrade com a parte de cima mais escura... Era para o momento mais solene
do dia. Assim como o nascer. Quase sagrado. O que não combinava nadada com ver
o dia clarear ainda bêbada. Antes de escurecer totalmente descia como uma
flecha, pelo lado asfaltado é claro. Nem sempre ia direto pra casa. Aproveitar
a inspiração pra conversar com algum amigo. Quando resolvia ir embora. Pra
evitar problemas em casa... Lá estava a parceira, prontinha. E em menos de 3
minutos estava em casa. Chegava suada e esbaforida. A mãe, como sempre,
perguntando onde ela havia ido. E, inutilmente, sempre a advertia para ter
cuidado e não correr tanto. Era como dizer: Corre bastante minha filha. Ela não
ouviria esse conselho. Assim como não ouviu muitos outro que sua mãe e outras
pessoas mais velhas lhe deram.
Caiu poucas vezes. Mas só quando teve certeza de
que era fera nas manobras. Algumas coisas ela só aprendeu mais tarde, como
passar entre a calçada o quebra molas. A rua em que morava era cheia
deles. Mas um dia... O capotamento aconteceu ao passar correndo por cima de um
deles porque, como sempre, estava atrasada pra escola. E de tanto bater em
buracos nas tais aventuras nos morros, o garfo da bicicleta foi entortando sem
que ela percebesse. Até que a derradeira batida travou, definitivamente,
a roda da frente no quadro provocando uma freiada brusca. Estabacou-se de
peito no chão. Morava num condomínio fechado cheio de crianças que brincavam
soltas, além do calçamento de paralelepípedo, calçamento que mesmo lhe causando
problemas na bicicleta sempre foi defendido por Lila. Dizia ela aos amigos e
ignorantes: _ Além de não aquecer como o asfalto, permite que a água da Chuva
retorne aos lençóis freáticos. Muita gente não entendia e nem queria entender o
que ele tais coisas. Era conhecida como 'a chata' ou 'maluca'. Principalmente
para os donos de carro. Mas ela falava assim mesmo.
Aprendeu a cuida de sua amiga com mais
atenção. Colocar graxa e óleo após lavá-la, apertar seus parafusos de vez
em quando, levar à oficina quando preciso e, manter os pneus sempre cheios
principalmente depois que começou a ir até os postos de gasolina e fazê-lo sem
ajuda de ninguém além do aparelho de calibragem de ar. Agradava-lhe mais ainda
o fato de não ter que pagava nada por aquilo. Aquilo sim era a expressão máxima
da liberdade.
Apesar de todo cuidado, caiu ridiculamente
mais uma vez. Dessa vez por culpa dos cuidados de um mecânico. É que nem sempre
se pode confiar no trabalho dessa classe. O cabo do freio foi mal colocado e ao
virar o guidão pro lado esquerdo o cabo esticou puxando o freio da frente. Mais
um capotamento pra sua lista de tombos. Voou passando pro cima da bicicleta.
Foi tão rápido que nem entendeu direito o que havia acontecido. Só ralou
cotovelos e joelhos. O incrível é que nenhum dos tombos foi visto por outra
pessoa que não ela mesma, que no fim acabava rindo de si própria. Chegou à
conclusão de que tombos ocorrem quando menos se espera. Quase sempre é uma
surpresa inevitável que nos derruba naquele momento em que se pensa estar
agindo com toda prudência. Pelo menos pra Lila costumava ser assim. O tombo
mais inesperado ocorreu ainda durante a pré-adolescência. Nem costuma contar a ninguém,
de tão ridículo que foi. Estava na frente do colégio, na hora da saída, sentada
no quadro da bicicleta conversando com um namorado, que aliás, foi incapaz de
segurá-la ao perceber que a bicicleta esta inclinando pra traz. Caiu no chão
levando junto sua dona. Que sem ação, acabou pagando um grande mico na frente
de dezenas de alunos, que não fizeram por menos. Caíram na gargalhada apontando
pra ela. Qualquer coisa era motivo para chacotas e vaias. E aquela situação era
um prato cheio.
Mais tarde, quando foi trabalhar, não muito
distante de casa, optou por ir de bicicleta. Ouvindo um som no fone de ouvidos
do celular. Empurada pela trilha sonora de uma rádio de música moderninha
pedalava por quilômetros na Rodovia Rio Magé . Na ida adorava sentir o suave
calor do sol da manhã em seu rosto. Observava os animais, trabalhadores e
a vegetação dos sítios à beira da estrada. De óculos escuros, pra proteger os
olhos do sol durante a manhã, e dos insetos ao voltar pra casa no fim da tarde,
voava em sua bicicleta.
Tristes eram os em que tinha de pegar ônibus por causa de
chuva ou atraso. Aproveitava pra fez filmes e fotos da estrada, registrando
transeuntes, arvores floridas, rios e as mudanças de cor das nuvens, entre
outras coisas que via na beira da estrada.
Não via a hora em que poderia voltar a circular
pela cidade e ter novamente a sensação de liberdade e paz, sem precisar se
aborrecer com ao esperar um ônibus ou gastar uma grana alta com taxi. Mas agora
necessitará de um suporte a mais. Uma cadeirinha pra levar seu filhote. A maior
preocupação é ao recordar que quando tinha uns dois anos, ela mesma, enfiou o
pé na roda da frente quando era carregada por sua mãe. Teve que engessar o pé
direito e chorou por não querer colocar a botinha. Depois chorou porque havia
gostado e não queria tirar-la e sim colocar outra no pé esquerdo.
Acidentes acontecem. Ela sabe disso e não tem
medo. O medo sim é perigoso. Impede-nos de viver grandes coisas, como patinar,
mergulhar profundamente, saltar de pára-quedas, viver um novo amor, cantar em
público, furar uma grande onda, aprender a andar de bicicleta, e ter um filho
deve ser a maior aventura de todas.
Lila viveu muitas dessas coisas e o que ainda
não fez, continua em sua lista. O filho vem em breve e encorajá-lo a viver
muitas aventuras é um dos projetos. Mas com a segurança necessária. Ensinar a
andar de bicicleta vai ser um aprendizado básico para todas as outras coisas,
começando pelo comportamento de um ciclista. O Bom exemplo é a melhor forma de
ensinar qualquer coisa a alguém. Porém maior mistério mora em... O que será que
vou aprender com ele? Se despedindo aos poucos da pessoa que é agora e da maneira
louca que andava em sua bicicleta.
Lila se prepara pra aprender todas as coisas que esse
novo ciclo da vida, que não deve ficar parada por muito tempo como as rodas de
uma bicicleta, lhe apresentará. Anima. Tem mover, girar, colocar pra rodar.
Esse texto foi criado para ser apresentado num dos eventos da Escola Livre da Palavra na lapa. E postarei outros feitos na ultima oficina com Marcos Faustine.Quando ainda estava grávida do Vitor. Datados de 2011.
ResponderExcluir