terça-feira, 12 de março de 2013

Rodar, girar, colocar pra mover















Rodar, girar, colocar pra mover

   Nas primeiras vezes só podia ir da barraca do seu Elói até o fim da rua, o que não dava nem meio quilômetro. Depois de um tempo... _Só até a esquina. Dizia a mãe aos gritos. Dai, já era quase um quilômetro inteiro. A brincadeira preferida era apostar corrida com os colegas. Dos tombos dessa época, nem se lembra hoje em dia. Era como se num houvessem acontecido. Raridade em fases de aprendizado. Até que, por volta dos 13 anos já rodava o bairro inteiro, conhecendo cada rua, becos e principalmente os morros. Os de barro, nos quais adorava subir se imaginando em uma competição de montanha. Adorava sentir o vento contra todo o corpo  quando descia a toda velocidade tirando as mãos do guidão e as levantando bem alto. Igual ao cristo redentor, ou como quem quer abraçar um amigo que chegou de longe. Isso é claro, num dos poucos morros asfaltados do bairro. Nesses momentos se lembrava do filme “Cidade dos anjos” nos momentos antes de a mocinha morrer ao fazer o mesmo num momento de extrema felicidade. Sabia do risco que corria. Mas poucas coisas a faria  sentir-se tão bem. Tudo por aquela sensação maravilhosa. Ah... Delícia!
      Subir na magrela e sair por ai...
    Lila nunca se esqueceria das bicicletas que teve na vida e nem das que já desejou ter. Lembraria de cada uma delas em detalhes. Ganhou a primeira aos cinco anos de idade. O pai quem deu. Aliás, além da contribuição genética era a única coisa que ela lembrava ter ganhado dele na infância. As duas bicicletas seguintes lhe foram das pelo padrasto, que ela acreditava nunca ter andado numa em toda sua vida.
   A primeira era fininha, até as rodas eram tão finas que trepidava toda bicicleta andando nos paralelepípedos da sua rua. De cor verde musgo metálico era bem elegante, mas não combinava com uma pré-adolescente. A terceira parecia um sonho em duas rodas e aros negros de alumínio, pneus grossos de montaing bike, a cor abóbora cheguei chamava toda atenção que uma menina comunicativa necessita, com rajados de sopros finos e  negros como os guidões e a garrafinha pouco utilizada. Acordava no meio da noite só pra ir até a varanda olhá-la mais uma vez sem acreditar que era sua. 
_ Ela é muito linda... ( dizia a si mesma em pensamento).
   Depois de alguns anos, muitos tombos, incluindo capotamento, e cheia de arranhões na pintura e em sua própria pele, resolveu deixar a pobre e já escabufada bicicleta nas mãos do namorado que a transformou em mais uma magrela sem graça pintando-a de... Adivinha que só? Verde musgo metálico. Não sei o que tinha com aquela cor? A tinta deveria estar em promoção ou sei lá o que. Bonita é que não era. Moderna muito menos. Ela nem de longe voltaria a ser aquela de antes. Então foi vendida por um mísero valor, só pra desocupar lugar no quintal. Já tinha ganhado. A última. Que tinha um valor especial. Mas não chegava nem aos pés da anterior. Essa realmente acompanhou Lila nos momentos mais importantes de sua vida. Foi parceira nas aventuras e nas fugas das investidas amorosas menos desejadas. Daqueles amigos que acabavam se tornando chatos à altas horas da noite.
   Dessa vez ninguém mais além da sorte foi responsável por tê-la ganhado. Foi num bingo perto de casa. Foi seu dia de sorte. E também a primeira e única vez que ganhou no jogo. Além da bicicleta, maior prêmio do dia, levou também um rádio pequeno que podia ser ligado na tomada ou usado com pilhas. O que era bem útil já que de vez em quando, principalmente quando chovia, a luz acabava, principalmente na área onde morava. Um lance de transformador que estoura com a ventania. Ganhou ainda um guarda chuvas preto. Passou a acreditar na tal sorte de iniciante. Que só ocorre uma vez na vida. Igual a primeira vez que meditou e entrou em Alfa. Ou pelo menos algo parecido. 
De qualquer forma aquela bicicleta era a prova em quatro rodas de que um dia teve sorte.
   Um dos momentos mais importantes que passaram juntas foi a primeira vez em que viu asfaltada a rua principal de onde morava. Quando saiu de casa a estavam preparando, e quando voltou à noite... Nem pode acreditar. Depois de mais de 20 anos passando por aquela rua que em dias normais era empoeirada, e de lamacenta a alagada nos dias de chuva... Agora lá estava o asfalto. Pulou de alegria. Mesmo não gostando muito do efeito calorento que o tipo de calçamento provoca nos dias de sol, reconhecia que assim seria melhor do que sair de casa com sacolas nos pés, como era de praxe fazer para proteger os sapatos de um fim mais rápido, além de evitar os olhares desdenhosos ao chegar à cidade, ou à escola.
    Com o passar dos anos criou por aquela bicicleta uma relação afetiva. Não seria somente mais um transporte ou objeto qualquer. Havia um sentimento de cumplicidade. E por que não, amizade entre ela e sua magrela?
   Grávida de sete meses, agora Lila olha com saudades, e certa dó, pra sua parceira. Tadinha! Pensa ela ao vê-la coberta com um plástico que a protegendo da poeira, mas não a livra de ficar largada e solitária, num cantinho do quintal sem dar nem um rolézinho a tanto tempo.  Lembra das tardes em que lavava a louça do almoço, correndo, montava na bicicleta e sai disparada depois de ouvir a mãe, aos berros, pergunta onde ele estava indo. Com a bicicleta já em movimento, respondia: 
_ Vou aliiii e já voooolto (também aos gritos). E saia pro seu compromisso inadiável.
   Era um momento particular. Só o fato de dizer a mãe aonde iria poderia destruir o momento intimo entre ela, a bicicleta e o por de sol.
    Subia um dos morros do bairro. A ladeira esburacada pelos dias de chuva deixava sobressalentes os pedregulhos encravados no barro vermelho, ou argila em alguns pontos. Até que chegava ao local preferido,  onde podia ver as montanhas que formam a Serra de Petrópolis e se unem as de Teresópolis, delimitam a fronteira com a baixada. Pra ela o bairro estava num vale. Mais é conhecido como mais um bairro da Baixada. Sentada na grama verde e novinha, sentia a brisa fresca do fim de tarde e apreciava a vista lá de baixo. Sentia-se com num colo de mãe. Protegida por aquela muralha mágica. Apesar de adorar ver o mar, e mesmo que de vez em quando precisar disso, ver as montanhas era sempre uma necessidade. Ao retornar ao bairro, depois de ter se mudado pra zona Sul, se sentia realmente em casa ao ver aquela muralha rochosa.
   Degustava a beleza daquelas rápidas mudanças de cor do céu. Com calma e atenção igual a que tinha ao comer os pudins de leite que sua mãe preparava para a sobremesa em dias de domingo, ficava olhado o as nuvens coloridas passando a cima de sua cabeça. O sol entrando lentamente atrás das montanhas, o dedo de Deus apontado pro infinito, e via a primeira estrela, que mais tarde descobriu ser um planeta. O céu ainda azul claro, escurecendo num degrade com a parte de cima mais escura... Era para o momento mais solene do dia. Assim como o nascer. Quase sagrado. O que não combinava nadada com ver o dia clarear ainda bêbada. Antes de escurecer totalmente descia como uma flecha, pelo lado asfaltado é claro. Nem sempre ia direto pra casa. Aproveitar a inspiração pra conversar com algum amigo. Quando resolvia ir embora. Pra evitar problemas em casa... Lá estava a parceira, prontinha. E em menos de 3 minutos estava em casa. Chegava suada e esbaforida. A mãe, como sempre, perguntando onde ela havia ido. E, inutilmente, sempre a advertia para ter cuidado e não correr tanto. Era como dizer: Corre bastante minha filha. Ela não ouviria esse conselho. Assim como não ouviu muitos outro que sua mãe e outras pessoas mais velhas lhe deram.
   Caiu poucas vezes. Mas só quando teve certeza de que era fera nas manobras. Algumas coisas ela só aprendeu mais tarde, como passar entre a calçada o quebra molas. A rua  em que morava era cheia deles. Mas um dia... O capotamento aconteceu ao passar correndo por cima de um deles porque, como sempre, estava atrasada pra escola. E de tanto bater em buracos nas tais aventuras nos morros, o garfo da bicicleta foi entortando sem que ela percebesse. Até que a derradeira batida travou, definitivamente, a  roda da frente no quadro provocando uma freiada brusca. Estabacou-se de peito no chão. Morava num condomínio fechado cheio de crianças que brincavam soltas, além do calçamento de paralelepípedo, calçamento que mesmo lhe causando problemas na bicicleta sempre foi defendido por Lila. Dizia ela aos amigos e ignorantes: _ Além de não aquecer como o asfalto, permite que a água da Chuva retorne aos lençóis freáticos. Muita gente não entendia e nem queria entender o que ele tais coisas. Era conhecida como 'a chata' ou 'maluca'. Principalmente para os donos de carro. Mas ela falava assim mesmo.
   Aprendeu a cuida de sua amiga com mais atenção.  Colocar graxa e óleo após lavá-la, apertar seus parafusos de vez em quando, levar à oficina quando preciso e, manter os pneus sempre cheios principalmente depois que começou a ir até os postos de gasolina e fazê-lo sem ajuda de ninguém além do aparelho de calibragem de ar. Agradava-lhe mais ainda o fato de não ter que pagava nada por aquilo. Aquilo sim era a expressão máxima da liberdade.
    Apesar de todo cuidado, caiu ridiculamente mais uma vez. Dessa vez por culpa dos cuidados de um mecânico. É que nem sempre se pode confiar no trabalho dessa classe. O cabo do freio foi mal colocado e ao virar o guidão pro lado esquerdo o cabo esticou puxando o freio da frente. Mais um capotamento pra sua lista de tombos. Voou passando pro cima da bicicleta. Foi tão rápido que nem entendeu direito o que havia acontecido. Só ralou cotovelos e joelhos. O incrível é que nenhum dos tombos foi visto por outra pessoa que não ela mesma, que no fim acabava rindo de si própria. Chegou à conclusão de que tombos ocorrem quando menos se espera. Quase sempre é uma surpresa inevitável que nos derruba naquele momento em que se pensa estar agindo com toda prudência. Pelo menos pra Lila costumava ser assim. O tombo mais inesperado ocorreu ainda durante a pré-adolescência. Nem costuma contar a ninguém, de tão ridículo que foi. Estava na frente do colégio, na hora da saída, sentada no quadro da bicicleta conversando com um namorado, que aliás, foi incapaz de segurá-la ao perceber que a bicicleta esta inclinando pra traz. Caiu no chão levando junto sua dona. Que sem ação, acabou pagando um grande mico na frente de dezenas de alunos, que não fizeram por menos. Caíram na gargalhada apontando pra ela. Qualquer coisa era motivo para chacotas e vaias. E aquela situação era um prato cheio.
   Mais tarde, quando foi trabalhar, não muito distante de casa, optou por ir de bicicleta. Ouvindo um som no fone de ouvidos do celular. Empurada pela trilha sonora de uma rádio de música moderninha pedalava por quilômetros na Rodovia Rio Magé . Na ida adorava sentir o suave calor do sol da manhã em seu rosto. Observava os  animais, trabalhadores e a vegetação dos sítios à beira da estrada. De óculos escuros, pra proteger os olhos do sol durante a manhã, e dos insetos ao voltar pra casa no fim da tarde, voava em sua bicicleta. 
Tristes eram os em que tinha de pegar ônibus por causa de chuva ou atraso. Aproveitava pra fez filmes e fotos da estrada, registrando transeuntes, arvores floridas, rios e as mudanças de cor das nuvens, entre outras coisas que via na beira da estrada.  
   Não via a hora em que poderia voltar a circular pela cidade e ter novamente a sensação de liberdade e paz, sem precisar se aborrecer com ao esperar um ônibus ou gastar uma grana alta com taxi. Mas agora necessitará de um suporte a mais. Uma cadeirinha pra levar seu filhote. A maior preocupação é ao recordar que quando tinha uns dois anos, ela mesma, enfiou o pé na roda da frente quando era carregada por sua mãe. Teve que engessar o pé direito e chorou por não querer colocar a botinha. Depois chorou porque havia gostado e não  queria tirar-la e sim colocar outra no pé esquerdo.
   Acidentes acontecem. Ela sabe disso e não tem medo. O medo sim é perigoso. Impede-nos de viver grandes coisas, como patinar, mergulhar profundamente, saltar de pára-quedas, viver um novo amor, cantar em público, furar uma grande onda, aprender a andar de bicicleta, e ter um filho deve ser a maior aventura de todas. 
   Lila viveu muitas dessas coisas e o que ainda não fez, continua em sua lista. O filho vem em breve e encorajá-lo a viver muitas aventuras é um dos projetos. Mas com a segurança necessária. Ensinar a andar de bicicleta vai ser um aprendizado básico para todas as outras coisas, começando pelo comportamento de um ciclista. O Bom exemplo é a melhor forma de ensinar qualquer coisa a alguém. Porém maior mistério mora em... O que será que vou aprender com ele? Se despedindo aos poucos da pessoa que é agora e da maneira louca que andava em sua bicicleta.
  Lila se prepara pra aprender todas as coisas que esse novo ciclo da vida, que não deve ficar parada por muito tempo como as rodas de uma bicicleta, lhe apresentará. Anima. Tem mover, girar, colocar pra rodar.
























Um comentário:

  1. Esse texto foi criado para ser apresentado num dos eventos da Escola Livre da Palavra na lapa. E postarei outros feitos na ultima oficina com Marcos Faustine.Quando ainda estava grávida do Vitor. Datados de 2011.

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