Ferrô! Outra vez? Não.
_ Ferrô! Agora eu to ferrado!
Podia sentir os miolos trepidando dentro da cabeça enquanto ouvia o
bate-bate dos dentes, e o chacoalhar do maxilar. Os pés mal tocavam o chão. Um
na frente do outro, moviam-se freneticamente em frações de milésimos de
segundos. Quase sem precisar de comando do cérebro aquecido pelo sol escaldante
de uma da tarde. O corpo parecia flutuar, se deixando levar pela lei da
gravidade descendo a ladeira de asfalto novo, negro como as pupilas dilatadas.
A expressão do rosto era de terror. A pele vermelha e brilhante sacudia e os
beiços molengas, meio abertos, deixavam o ar entrar enchendo as bochechas
molhadas do suor que escorria desde o topo da cabeça.
Depois de correr sem destino por uns 20 minutos pelas ruelas estreitas
do bairro, bufando e gruindo como cão sedento, Marimba parou. Mesmo sem
poder. Colocou as duas mãos nos joelhos
abaixando a cabeça. Encostado em um muro, refrescando-se com pouca sombra, respirou
fundo sentindo o coração quase parar de tão forte que batia. Ao catar o ar
afoitamente, com boca e nariz, cada osso de suas costelas podiam ser vistos no movimento
das costas magrelas. Estufando e minguando o peito segurou sua figa pendurada
no cordão. Era pra dar proteção. Presente da avó materna. Faleceu faz dois anos.
Um mês depois do avô João.
Não sabia pra onde iria.
_Se a vó Zéfa tivesse aqui...
Tadinha! Desejou o colinho de vó como lhe era de costume em situações como
aquela. A mãe era mais capaz de lhe dar uns cascudos pra deixar de safadeza.
Todo mundo conhecia o moleque magrelo que morava no “Beco do Ó”. Mesmo
tendo saída e sendo asfaltada era assim que chamavam a viela onde ele morava.
_Em casa me achariam em dois
segundos. Atinou sabiamente.
Sem vacilar entrou no primeiro ônibus que apareceu.
Por sorte este o levou pra casa da tia Dedé, única irmã de sua mãe e ultima
parente que permaneceu na cidade depois que o avô e avó paternos morreram. Deixaram
uma terrinha em uma cidadezinha do interior a qual ele e sua mãe nunca quiseram
se quer conhecer.
O pai foi um dos que se mandou
sem dizer pra onde. Disse que iria voltar logo. A mãe espera até hoje. Mas de
vez em quando arruma um namorado.
_Só pra distrair... a final
ninguém é de ferro. E sabe-se lá o que seu pai tá fazendo por ai. Se bobear já
tem até outra família. Dizia a mãe se justificando. Como se precisasse. Pensava
que, como todo filho único, o seu também era ciumento. Na verdade Marimba
achava mesmo que ela tinha mais é que casar de novo pra ver se largava do pé
dele um pouco. Mas não falava nada. Não queria se meter.
Foi recebido com abraços e sorrisos dos
primos e da tia que foi logo o avisando que ali todos tinham que caçar trabalho.
Antes mesmo de oferecer uma água.
A tia e os primos se comprometeram em ajudar na procura de emprogo.
_E nada de se meter com parada
errada! Fez questão de avisar a tia.
_ Valeu tia! Pode deixar.
Respondeu Marimba com ares de pessoa séria endireitando a postura.
Depois de merecido banho, dentes escovados com escova do primo, deitou
de vagarzinho no colchão mole colocado pra ele no chão do quarto dos meninos.
Foi então que parou pra pensar.
_ Que mina doida! Como que eu ia saber que era mulé do dono da Boca?!
Disse ele, ainda procurando explicação pro que tinha acontecido naquele dia
louco.
A mãe ficou sabendo onde o filho estava umas duas horas depois. Diante do
acontecido concordou que ele ficasse lá por uns tempos. Mas não deixou de dar
uns gritos com o filho, que ouviu tudo pelo telefone, calado e com cara de bolo
murcho.
Não demorou muito e Marimba já estava dando um rolé. Reconhecendo o
terreno. Mas sabia que mesmo não estando na sua área poderia ser reconhecido.
Afinal, a baixada é toda uma coisa só e, o pessoal brota em tudo quanto parte
da cidade.
Meteu um boné na cabeça, óculos escuros do tamanho da cara e bateu a
porta saindo com os chinelões do primo que, apesar de mais novo, era bem maior
que ele. Os dele haviam ficado no quarto de onde fugiu as pressas.
Foi parar na rua principal. Tinha um movimento doido de carros e um
bando de gente indo e vindo. Marimba ouviu um funkão que vinha de um lugar não
muito longe. E seguiu o barulho.
_ Que parada é essa? Curioso, o
moleque foi atrás do som igual aos personagens de desenho animado que vão
flutuando na fumaça até chegar à comida gostosa, levados pelo cheiro bom de
frango assado ou de um bolo recém saído do forno. No caso dele foi a batida
frenético que o fisgou.
Uma tenda meio trailer, toda na cor rosa, com um monte de caras vestidos
também de rosa. O que ele não sabia é que eles estavam fazendo um churrasco.
Resolveu chegar mais perto. Quem sabe fazer uma boquinha? Ao se aproximar não pode
acreditar no que via. Era um salão de beleza no meio da rua e os caras de rosa
eram os cabeleireiros. Então, viu o que estava na churrasqueira saindo de seu
posto pra receber o dinheiro de um dos clientes que já ia saindo.
Os preços eram de irmão. Então resolveu entrar e mudar o visual pra se
disfarçar de verdade. Estava, mesmo, com medo de ser encontrado pelos caras.
_Ficou sinistro! Falou pro cara
que fez o cabelo dele.
De luzes bem loiras e um corte moicano, ficou se achando “o cara” com
aquele cabelo. Aproveitou o descolorante que sobrou pra pintar a barbicha que
estava crescendo. Fez até as sombracelhas aproveitando uma promoção. Tudo isso
com o dinheiro que sua mãe havia lhe dado pra ir ao mercado. Mas não teve tempo,
já que foi se meter com mulher dos outros, ao invés de ir fazer o que a mãe havia
lhe mandado.
Ficou sabendo de varias coisas no salão. Inclusive que ofereciam curso
de cabeleireiro. Mas se interessou mesmo foi pelas festas que rolavam no fim de
semana.
A tia não gostou nada do visual novo, e pensou que daquele jeito o único
lugar em que aquele moleque poderia trabalhar era no Black´s coiffeur. Ligou
pro Gordão, o dono do salão, que nem era tão gordo assim apesar de tanto churrasco
que comia enquanto fazia. Pediu a ele
que lhe fizesse o favor de ajudar seu sobrinho dando uma oportunidade de
trabalho. Contou toda a história pra ele. E o Gordão que tinha coração mole,
demorou um pouco... mas, logo arrumou vaga pro garoto.
Marimba já estava trabalhando no salão a quase dois anos, quando num dia
daqueles... Salão lotado, churrascão rolando, funk nas alturas, movimento
maneiro... Quando viu um carrão parando na porta. Parou pra prestar atenção e
ver se era algum cliente dele. Não esperava ver o que viu. Dentro dele saiu a
mulher que o fez conhecer a velocidade máxima que suas pernas poderiam
alcançar. Ficou mais branco do que pescoço de cliente cheio de talco ao terminar
o corte de cabelo. Tentou se esconder. Mas não podia largar o cara ali sozinho,
e o serviço pela metade. Ela entrou. E china que era o maior olho grande, foi
logo pra cima se oferecendo. Ela nem quis conversa. Marimba continuou de costas
pra ela o máximo que pode. Não adiantou. Ela foi em sua direção como quem sabe
o que está procurando.
_ Sim?!
Disse ele, só com um aceno de
cabeça, e sem se virar.
Ela insistiu.
_ Eu não te conheço?
Então ele recorreu a única saída
que lhe veio a mente. Com voz afeminada respondeu:
_ Eeeeeeeu? Num lembro mona. Deve
ser daqui! Respondeu rapidamente como quem não quer muito conversa.
Ela se espantou com a boiolice do
rapaz. Mas não se convenceu.
_ Pensei que...
Ele a interrompeu bruscamente falando
de um primo muito parecido com ele. Só que de cabelo escuro. E completou:
_ Aquele safadinho...
Com um olhar perdido e um sorrisinho de quem
se lembrava de algo que fizeram juntos.
_Ela se convenceu, e desapontada
disse:
_É mesmo?! Pena... (lembrando dos
momentos que passaram juntos)
Só ele sabia o quanto lhe custaria aquela farsa. E ela estava ainda mais
gata que nunca. E ali, procurando por ele. Quando estiveram juntos não teve
tempo de fazer tudo que tinha vontade. Mas era melhor continuar vivo. Teve
sorte. Pois o Macabro, nome pelo qual era conhecido o dono do morro, não teve
tempo de ver a cara dele. Fugiu tão rápido, pulando por uma janelinha, ganhando
chão num segundo, sem dar tempo do cara pensar.
Não iria arriscar uma segunda
vez.
Os moleques não entenderam nada.
Sabiam como marimba era pegador. Mas mesmo assim, caíram na pele dele logo que
a porta se fechou atrás da mina.
Até hoje eles contam a história
tirando uma com a cara dele na frente dos clientes.