sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Miradas

Mestiças de rebolado frouxo e olhares discretos
Mulheres de andares duros, e cabelos tristes.
Tanta beleza... e o peso de um ar sufocante.
Abafamento da alma.
Em cada cidade meu amor se vai.
Pedras cheias de vida, 
escombros absorvem tudo
Tantas diferentes histórias.
Meu corpo se dissolve na paisagem.

O mar verde claro, quase azul, 

por sua areia branca.
Eu mulata... Cor de rainha! 
Um negro lindo é quem me diz. 
Só rio.

Recolho uma arvore que caia no rio.

Trepo no lombo de um burro triste,
E com um facão na mão, cumpro meu destino.
Sumo. Lentamente... Numa paisagem turva.
Que se descola de mim.
E que permanecerá viva enquanto eu viver.




                                                                                                 

                                                             

                                                                           



                   



                           





                     


Viva a Colômbia.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Irmãos legais



   É assim que chamo os Santos Cosme e Damião. Quando nasci o meu primeiro sinal de vida foi um espirro. Assim conta minha mãe pra quem quiser e não quiser ouvir. Principalmente na frente dos meus amigos. Eu mesma não lembro de nada. Claro. Mas tenho impressão de recordar, feito um sonho. Mas, de algumas coisas que me aconteceram quando tinha uns dois... três anos me recordo nitidamente. Tenho quase certeza de que as lembranças são só minhas. E não do que me contarão dos outros. Meus tios por parte de pai sempre me contam histórias de quando morei com eles. Porque é assim que se mantem as lembrança vivas quando não se tem câmeras fotográficas e muito menos filmadoras. E quando morei com eles não tínhamos nem luz artificial. Foi exatamente quando tinha 3 anos e é o momento da minha vida que mais me marcou e  do qual tenho várias recordações imagéticas. Talvez  minhas recordações sejam uma mistura das duas cousas. Mas, do espiro que dei no dia em que nasci... não poderia lembrar.  Talvez se... Não, não mesmo.
 Minha mãe explicou o motivo disso ter acontecido e tive confirmações verosímis e empíricas de sua versão sobre o porquê do espirro. Ao longo da minha infância pude constatar a lógica dos fatos. Foram vários os banhos de chuva de verão que tomamos juntas.  Sempre adorei. 
   O fato é que nasci em maio e minha mãe, como sempre, e talvez por  muita felicidade, tinha 18 anos e nessa idade as pessoas são mais felizes mesmo com problemas sérios, tomou banho em todas as chuvas daquele verão antes de eu nascer. Nasci com vários problemas respiratórios. Mas não acho que foi por conta dos banhos de chuva não. Tinha eu catarro no peito. Imagina! Mas acho que tudo isso é por conta de ser uma característica de geminianos. Principalmente nas mulheres regidas pelo signo maldito dos zodíacos. Frívola, sonhadora, dupla personalidade, tendencia a se vestir de forma lúdica e outras tantas coisas mais que já tinha ouvido. Acostumei, sem zangar, a escutar essas e muito mais blá, blá, blás dos que me preguntavam e depois faziam questão de demonstrar algum conhecimento sobre o assunto. Mas me chateou ler isso num livrinho que julgava sério pois se dedicava exclusivamente a cada sígno. Dizia que o aparelho respiratório de tais desafortunados não funciona lá muito bem e que devemos preferir as comidas cosida que esquentam o aparelho respiratório. E as saladas, comida japonesa onde ficam? Em segundo, ultimo ou nenhum plano talvez.
   O chato de tudo isso é que fui um bebe doente, vivia sendo levada as preçar pro hospital com febre e toma-lhe injeção. A suspeita era de princípio de pneumonia. Existe mesmo isso? Princípio? O fato é que todos diziam que de tão magra eu parecia passar fome, quando na verdade minha mãe me enchia de vitaminas, e nada de eu engordar. Não mamei no peito. Minha mãe secou. Acho que por isso era doente e magra. Garganta inflamada era uma coisa com que convivi por muito tempo na vida. E ninguém merece. Ser boêmia, geminiana, e ter que que ouvir sempre que saia minha mãe dizer coloca casaco, leva guarda chuvas, não pega sereno, vê se chega sedo. Nada disso adiantava. Depois dizia _Viu... Eu te avisei. 


   Mas bem antes disso, quando ainda era pequena, minha mãe fez um trato com os santos irmãos, Cosme e Damião. Os gêmeos legais que cuidam das crianças. Se eu sobrevivesse ela daria doces. Por alguns anos foi assim... Bem, to viva.

   Era muito maneiro! Depois de mais de vinte anos, ainda hoje quando entro em uma dessas lojas de doces lembro das vezes em que ia comprá-los. Saíamos de lá com o carro lotado de caixas de papelão cheios de guloseimas. Maria mole ( chamava de piru de velho), batons Garoto, suspiros, doces de abóbora em forma coração, e muitos outras coisas com muita açúcar incluindo a cristalizada.

    Num ano mau minha mãe estava sem grana. Mas não sem criatividade. Então fez bolo de chocolate. Uma delícia cremosa. Adoooooro bolo de chocolate! Certeza de que foi uma ótima estratégia. A criança da vizinhança caiu matando. E ela não descumpriu o trato. 

     Depois dos 7, 8 anos eu já podia frequentar as famosas filas de doce na frente das casas das pessoas que distribuíam doces, nas sua maioria casas de macumba. Lá eu não gostava muito de ir não. Tinha medo. Mas fazia parte da rota dos doces. Achava o lugar meio sombrio e diziam que os doces vinha com macumba feita. Mas eu ia mesmo assim. Apesar de bem seletiva quantos aos doces... Gostava mais dos doces de leite, chocolate, e poucos outros. O resto eu dava pros coleguinhas que estavam comigo. Isso me dava moral entre eles. Eu gostava mesmo era da adrenalina de correr até a casa que estava distribuindo os melhores doces daquela hora. porque acontecia de terem dois ou mais lugares que distribuem no mesmo horário. Mas já sabia quem eram as que faziam isso a mais tempo e com qualidade. Eu tirava onda de ter me dado melhor do que os outros. Um desse lugares era a Casa da Bia, essa casa era uma fábrica de pipas e ceróis. A Bia era a dona e sempre dava pipa também. Tinha sempre aquele otário que escolheu uma casa ruim e ficava querendo trocar doces menos legais por um, nem que foce só um de boa qualidade.


 Considero essa festa popular como um ritual de passagem que prepara as crianças, pobres, pra enfrentarem a vida adulta. Programação, organização de horários e rota de percurso, Saber que nunca se deve chegar depois da hora que foi anunciada a distribuição de cada casa ( pois o doce acaba rápido,dependendo da casa), saber lidar com ansiedade, Aturar filas e mais filas, Pisões nos pés, impura impura, esperas e expectativas muitas vezes frustradas.  Teve vezes em que agente chegou numa casa que sempre dava e derrepentemente não dava mais. Sem contar o do corre-corre... O dia inteiro.



     A parte legal, porém não menos humilhante, era quando jogavam balas avanço. Era uma muvucada... Uma criança em cima da outra, cotoveladas na cara, pisão na mão. Mas, na maioria das vezes, todos saiam vivos. Perigoso mesmo rea pros sem noção que iam pra beira da pista esperar carros que passam distribuindo os saquinhos. Sempre passava no jornal a notícia de famílias que morreram atropeladas. Ainda hoje quando chega essa época vejo famílias inteiras com muitas criança cometendo essa insanidade. Eu nunca fui, nem precisava. No meu bairro já tinha baste diversão pra mim.

     Doido mesmo foi uma vez em que entrei num Centro de macumba pra pegar os tais doces. Batiam os tambores, rolava uma dança estranha com cheiro forte, hoje sei, de defumador e haviam umas mulheres de sais rodadas com outra de palha seca por sima, umas coisas doidas que cobriam o rosto, turbantes. Ficavam dando gritos e gargalhadas, girando ao redor da sala escura... Uuuuui!  Minha mãe dizia que era coisa ruim. Sai de lá correndo.  Cheia de pavor. Medo que eles me colocassem numa panela como as bruxas fazem com as crianças nos desenhos animados e filmes de terror infantil. Ouvi dizer que  lá se fazia feijoada com criancinhas. Preferi não ficar pra ver se era verdade. Pelo ritmo da batucada certamente o fim da festa estava próximo. E é quando a comida é servida aos santos. Mas não esperei nem os doces. Não queria ser a comida da vez.

   Além do mais, não queria atrapalhar o acordo que minha mãe havia feito com os irmãos legais. Eles haviam me mantido viva até aquele momento. Por que eu iria ser ingrata colocando tudo a perder por uns docinhos?

   Hoje não pego mais os doces,   E minha mãe quase não faz nem o bolo de chocolate pra família, e não sei quando exatamente decidiu que não precisava mais oferecer doces em troca da minha saúde. O acordo era entre ela e os irmãos legais. Nunca me meti. Eu nem costumo mais tomar banho de chuva. A menos que ela me pegue no caminho ou que eu tenha uma pessoa  animada ao meu lado que também tope uma brincadeira. Já estou adulta e morando em apartamento. Além disso adultos não se deixam levar pelo momento. Mas há exceções.  Um vez, já com uns 28 anos de idade tomei banho numa chuva de granizo com minha prima. Ela tem quatorze anos a menos que eu e isso foi o suficiente pra eu me convencer de que ela tinha razão em querer tomar aquele banho gelado. Eu não perderia a oportunidade de ter essa experiência. Sabe como é...        

   Uma bobona sem juízo. Foi como me senti. Mas não é tão mau como pensar em tomar banho numa dessas chuvas com raios e trovoadas. Ai já é muita doideira. Nem entro em baixo daquela cachoeira que vem dos canos dos telhados. Deve ter de tudo quanto é sujeira de bichos, rato. Sei lá?! Só não abro mão da loucura que tenho por uma grande e suculenta torta de chocolate acompanhada de uma bela dose de felicidade e gargalhadas. Mesmo que me engasgue. Faz parte, assim como coca-cola que sai pela boca numa cusparada potente e esguicha pelo nariz quando um amigo bobo te faz rir só de olhar pra ele, bem na hora em que você vai engolir a parada. Isso já me aconteceu, com Coca, com água. E de verdade, já me engasguei com chocolate. É sinistro. Aquela viscosidade e você sem conseguir respirar e a pessoa que tá perto nem pensa em trazer uma água, e fica falando um monte de inutilidades do tipo, levanto os braços, abaixa a cabeça, respira... E você desesperado fazendo tudo o que o inútil tá mandando, com medo de morres. Mas uma vez sobrevivi. 

Valeu Cosme e Damião. Isso de eu sobreviver deve ser mesmo coisa dos irmãos legais.

















No caminho


quinta-feira, 14 de março de 2013




Cabelo de Boneca Xuxa

 Encasquetei de fazer quilo... Agora não dava pra voltar atrás. 
   O lugar tava meio escuro, abafado e todo empoeirado. Putiz! Entrei. Decidida... Mas com um frio na barriga. Ninguém se moveu ao me ver chegar. Me senti transparente, quase um fantasma. O ar pesado e o cheiro, de sei lá o que, me embrulhou o estômago. Era uma inhaca de creme pra pentear com a fumaça do secador de cabelo, misturado com esmalte e acetona... Em fim. Qualquer mulher adoraria o ambiente. mas eu não. 
   Era o último salão em que poderia tentar ser atendida num sábado a tarde. Praticamente missão impossível. 
 Depois de ir à três outros, institutos de beleza, e ter recebido sonoros e desanimadores nãos, o desespero falava mais alto do que meu censo crítico. Já havia esquecido do tal amor próprio diante de todo desdenho e total falta de caridade dos profissionais da área
   Minha cara de insatisfação com aquele lugar me fazia parecer ainda mais antipática que o habitual. E minha impaciência não me impedia de olhar tudo em volta com cara de nojo. Tentava, verdadeiramente... Mas não conseguia disfarçar minha enorme vontade de virar as costas e sumir daquele lugar. Estava quase entregando os pontos e assumindo que não teria um belo penteado pra fazer inveja nas outras mulheres da festa. É eu tinha uma festa pra ir naquele dia. E não reservei uma hora em salão algum. Eu não costumo ir à salões. Eu odeio salão! Conversava comigo mesma. Em voz baixa, quando... uma cabeleireira com expressão de desanimo e poucos amigos se aproximou de mim e quase se arrastando, me apontou o lugar onde ela desejava que eu me sentasse. Como se fosse um grande favor que me fazia... sabe? 
   Naquele momento eu estava, definitivamente, nas mãos dela. Consegui. E agora não tinha mais como fugir.
 Brilhavam de longe umas marcas nas cadeiras, meladas de creme de cabelo, nas quais em uma delas eu teria que me encostar. Pior foi aquele forro de napa (imitação vulgar de couro) surrada e rasgada que beliscou a minha bunda do início alfim. 
   Não tinha pra onde fugir. Me sentei tentando não recostar e fui logo dizendo a ela o que desejava fizesse. 
   Só me restavam duas horas para dar um jeito no black, e ir para casa, correndo, sem suar, tomar um banho, sem estragar o penteado, inventar uma maquiagem que me fizesse parecer mais jovem, e disfarçasse a infeliz de uma espinha que resolveu aparecer minha cara justamente naquele dia fatídico. Espinha depois dos trinta anos... só pode ser sacanagem. Ainda por cima teria que colocar um vestido que minha irmã escolheu. Alugou numa dessas casas de roupas pra festas, juntamente com a de todas as outras pessoas da família. Damas de honra, cavalheiros, 8 pessoas no total. Isso pra não correr o risco de alguém se vestisse mau fazendo com ela pagasse um mico (como ela mesma disse). E em fim... Teria que conseguir chegar ao casamento a tempo de pelo menos pegar o amuleto da sorte de toda solteirona. O buquê da noiva. O problema é que, no meu caso, a noiva já era um amuleto, de azar.

_ 17 anos e já vai casa! (dizia a cabeleireira com inveja, dando um tom de pena à voz, pra disfarçar o despeito). Fiquei quieta.      Sendo eu a mais velha, e chamada de encalhada por toda a família nos detestáveis almoços de domingo, é que não poderia aparecer com um cabelo de bruxa desgrenhada. Queria, pelo menos, chamar um pouco da atenção das mulheres mais velhas e encalhadas como eu. 
   Nunca consegui um namorado que ficasse comigo depois de conhecer minha irmã, ou uma de minhas amigas. Todas sempre foram mais bonitas que eu. Ou talvez eu esteja escolhendo mau minha companhias.
   Voltando ao dilema do que fazer no cabelo... Escova japonesa deve ter esse nome porque depois de tanto puxar o cabelos a mulher saia do salão, também,  com os olhos puxados.

_Gosto dos meus olhos do jeito que são... (Disse bem baixinho).

_Prefiro fazer a escova indiana. Quem sabe saio daqui mais Zen.(Falei pra cabeleireira em tom de sátira, tentando tornar aquela situação engraça). Tentando enganar a mim mesma. Tava na cara que aquilo não ia dar certo.

   Até que me caiu bem! O vestido verde que iria usar não me saia da cabeça.  
É... Disfarça minha magreza e realça a cor dos meus olhos. A única coisa que realmente gosto no meu corpo inteiro. (pensava)...O bordado não é lá essas coisas... Mas ela nem deixou eu  dar minha opinião. (fala comigo mesma pra me consolar). 
   Minha irmã é quem escolheu todas as roupas. Já disse isso né?

 Foi quando a cabeleireira saiu,  depois de analisar, por longos 5 segundos, o meu delicado caso. Sem me dizer uma palavra, entro em uma misteriosa salinha, onde pegaria os misteriosos e provavelmente fedorentos, produtos químicos tão desejados pela maioria das mulheres, e  que me deixariam parecida com alguma personagem da novela caminho das índias. Nesse momento tive a certeza de que estava fazendo uma enorme besteira.  Mesmo assim, diante daquela situação de desconforto e medo total, não pude deixar de reparar na bunda dura de  uma novinha que estava lá. Era igual a da mãe. Só que a da mãe era murchinha. As mulheres também reparam nas bundas das outras. E muito... É tristre ver como a lei da gravidade pode ser cruel com algumas pessoas. A mãe é uma senhora que trabalha na cantina da única Escola Estadual do bairro. Dizem que pra saber como  uma mulher vai ficar quando envelhecer é só olhar o corpo da mãe. Mas isso nem sempre é um diagnostico infalível. No meu caso por exemplo, não serve. Sou magrela e minha mãe é obesa, e já era carnuda quando nova. Minha irmã sim, se parece com minha mãe.  Por isso está casando primeiro que eu. Puxei ao meu pai. Na rua onde moramos todo mundo o chama de Seu Vara Pau. Preciso falar mais alguma coisa?

   A cabeleireira, ficou no meio do caminho, e eu lá esperando. Cada vez mais desesperada. ela se distraiu numa conversa idiota com uma colega que havia acabado que chagar da Lan Houre. Casa do Alan como gosto de dizer brincando com essa história de tudo ter nome em inglês no Brasil. Nas primeiras vezes que ouvi falarem nisso, realmente pensava que era esse o significado. Até que vi escrito numa placa. E, continuei sem saber direito o significado. Mas compreendi que é uma casa em que se pode usar o computado, geralmente estrupiado, e  uma internete com velocidade de conexão super lenta, por um valor que me parece desvantajoso pra todo mundo. Já que, cada vez menos se vê estabelecimentos desse tipo por ai.

_ Miniiiina! Quando sentei na frente do computador... Um pen drive esquecido piscava pra mim. Parecia um chamado. Não resisti. Abri... E tinha um monte de fotos dum bando de cara forte com roupa de exercito, só que, tudo sem camisa.( dizia  a amiga esbaforida de tão rápido e excitada que falava).

_Ai... Adoro homem de farda! (comentou aquela que devia estar fazendo o meu cabelo). _ E aia!?( perguntou a cabeleireira desertora).


_ Deixei um recadinho pra ele. Quem sabe? Se rolar um encontro te chamo e falo pra ele levar um amigo. ( gritinhos são ouvidos e logo abafados).
 _ Sente a pressão no nick do muleque: vitinho pqd.boladao@hotmail.com.

    Boladona estava eu. Já sabia que iria chegar atrasada. Mas por experiências anteriores sabia que reclamar só iria pior a minha situação. 
   E o barulhinho do cabelo molhado da cliente  ao lado sendo cortado... Quando caia um chumaço no chão... me lembrava coco de cachorro com diarreia.  Tudo em volta só piorava minha angustia. Então resolvi manter o olhar fixo nos olhos da cabeleireira pra ver se ela se tocava. Funcionou.

   Fiquei naquele ritual insano por mais de uma hora e meia. Quando acabou não sentia meu cabelo na cabeça, só a ardência das queimadas de secador e da prancha. Me sentia muito estranha. Lembrei dos cabelos de uma boneca Xuxa que eu tinha quando era criança. Com um corte reto e franja também reta agarrada na cabeça. A horrível faixa de plástico não deixava que nenhum fio se movesse do lugar. Quando sai do salão foi ainda pior. O vento levantava meu cabelo pra tudo quanto era lado. Corri pra chegar em casa antes que algum conhecido me visse daquele jeito. Onde estavam o controle e a segurança que sempre tive com meu cabelo duro? Sempre no mesmo lugar... Desejei uma faixa igual a da boneca Xuxa. Pelo menos até chegar ao casamento no qual pretendia pegar o buquê e dançar bastante balançando meu cabelo novo. que só duraria até outro dia. Supunha eu.

Foi quando passou uma Kombi, e sem pensar entrai nela, me espremendo com outras pessoas que além de estarem suadas eram super mau encaradas. Por sorte nenhuma daquelas caras era conhecida, e pelo menos, ali dentro, só um lado do cabelo se mexia com o vento que entrava pela janela. Agora respirava melhor. Aliviada. O que eu não sabia é que eram necessárias pelo menos 24 horas pra eu ter passado por toda aquela ventania e agitação. Cheguei em casa parecendo um personagem de humos que tem um lado da cabeça com cabelos cacheados pois puxou pai, e outro liso, que puxou da mãe. Não teve jeito... Molhei os cabelos e fiz um coque bem apertado, com bastante fixador pra que nenhum fio se rebelasse durante a festa. E pra completar o visual, cafonérrimo, tinha bastante glíter de um outro spray que minha mãe fez questão de tacar na minha cabeça enquanto eu tentava me enfiar numa meia calça.

Nunca mais voltei àquele salão dos terrores.
    Minha irmã disse não, na hora do sim. Mas, rapidamente disse voltou atrás.

_Era só pra descontrair (dizia a todos na hora da festa). _Perco o noivo. Mas não poco a piada. 
   Eu, continuei encalhada. Agarrar o buquê? Não consegui chegar nem perto dele. Na hora exata apareceu uma mulher enorme, não sei de onde, que agarrou meu cucurôto com toda  a força e me jogando longe, se colocando na direção exata e conseguindo agarrá-lo no meu lugar. Logo em seguida, foi atropelada por um bando de mulheres desesperadas que caíram matando em cima dela e do tão desejado buquê de flores que, ao final de toda aquela confusão, se transformou em algo destroçado e irreconhecível. Mesmo assim eu continuava pensando... Talvez se eu estivesse com o cabelo lambido e seco a mão dela escorregasse e... na pior das hipóteses, escaparia deixando uns fios de cabelo. De tão fracos e quebradiços que ficaram, era o que certamente aconteceria. Igualzinho aos da boneca que acabou ficando careca de tanto que a penteávamos.        Ao final foi melhor não ter conseguido agarrar aquele buquê inútil. Só de imaginar aquela manada em cima de mim sinto uma pontada de dor nos meus frágeis ossos. Prefiro ficar viva. Mesmo que encalhada. 
   Mas e se... lá no hospital, algum médico bonitão, sozinho, e à procura de uma moça de 30 anos como eu, pra... sei lá?
   E fomos todos felizes para sempre. Eu, minha irmã, minha mães que desencalhou uma filha e a cabeleireira que vai continuar ganhando dinheiro as custas de outras pobres coitadas, iludidas e pressionadas como eu. 


terça-feira, 12 de março de 2013

Mais um dos textos criados pra Escola Livre da Palavra




Ferrô! Outra vez? Não.


_ Ferrô! Agora eu to ferrado!

   Podia sentir os miolos trepidando dentro da cabeça enquanto ouvia o bate-bate dos dentes, e o chacoalhar do maxilar. Os pés mal tocavam o chão. Um na frente do outro, moviam-se freneticamente em frações de milésimos de segundos. Quase sem precisar de comando do cérebro aquecido pelo sol escaldante de uma da tarde. O corpo parecia flutuar, se deixando levar pela lei da gravidade descendo a ladeira de asfalto novo, negro como as pupilas dilatadas. A expressão do rosto era de terror. A pele vermelha e brilhante sacudia e os beiços molengas, meio abertos, deixavam o ar entrar enchendo as bochechas molhadas do suor que escorria desde o topo da cabeça.

   Depois de correr sem destino por uns 20 minutos pelas ruelas estreitas do bairro, bufando e gruindo como cão sedento, Marimba parou. Mesmo sem poder.  Colocou as duas mãos nos joelhos abaixando a cabeça. Encostado em um muro, refrescando-se com pouca sombra, respirou fundo sentindo o coração quase parar de tão forte que batia. Ao catar o ar afoitamente, com boca e nariz, cada osso de suas costelas podiam ser vistos no movimento das costas magrelas. Estufando e minguando o peito segurou sua figa pendurada no cordão. Era pra dar proteção. Presente da avó materna. Faleceu faz dois anos. Um mês depois do avô João.

Não sabia pra onde iria.

_Se a vó Zéfa tivesse aqui... Tadinha! Desejou o colinho de vó como lhe era de costume em situações como aquela. A mãe era mais capaz de lhe dar uns cascudos pra deixar de safadeza.

   Todo mundo conhecia o moleque magrelo que morava no “Beco do Ó”. Mesmo tendo saída e sendo asfaltada era assim que chamavam a viela onde ele morava.

_Em casa me achariam em dois segundos. Atinou sabiamente.

    Sem vacilar entrou no primeiro ônibus que apareceu. Por sorte este o levou pra casa da tia Dedé, única irmã de sua mãe e ultima parente que permaneceu na cidade depois que o avô e avó paternos morreram. Deixaram uma terrinha em uma cidadezinha do interior a qual ele e sua mãe nunca quiseram se quer conhecer.

O pai foi um dos que se mandou sem dizer pra onde. Disse que iria voltar logo. A mãe espera até hoje. Mas de vez em quando arruma um namorado.

_Só pra distrair... a final ninguém é de ferro. E sabe-se lá o que seu pai tá fazendo por ai. Se bobear já tem até outra família. Dizia a mãe se justificando. Como se precisasse. Pensava que, como todo filho único, o seu também era ciumento. Na verdade Marimba achava mesmo que ela tinha mais é que casar de novo pra ver se largava do pé dele um pouco. Mas não falava nada. Não queria se meter.



    Foi recebido com abraços e sorrisos dos primos e da tia que foi logo o avisando que ali todos tinham que caçar trabalho. Antes mesmo de oferecer uma água.

   A tia e os primos se comprometeram em ajudar na procura de emprogo.

_E nada de se meter com parada errada! Fez questão de avisar a tia.

_ Valeu tia! Pode deixar. Respondeu Marimba com ares de pessoa séria endireitando a postura.

   Depois de merecido banho, dentes escovados com escova do primo, deitou de vagarzinho no colchão mole colocado pra ele no chão do quarto dos meninos. Foi então que parou pra pensar.

   _ Que mina doida! Como que eu ia saber que era mulé do dono da Boca?! Disse ele, ainda procurando explicação pro que tinha acontecido naquele dia louco.

  A mãe ficou sabendo onde o filho estava umas duas horas depois. Diante do acontecido concordou que ele ficasse lá por uns tempos. Mas não deixou de dar uns gritos com o filho, que ouviu tudo pelo telefone, calado e com cara de bolo murcho.

   Não demorou muito e Marimba já estava dando um rolé. Reconhecendo o terreno. Mas sabia que mesmo não estando na sua área poderia ser reconhecido. Afinal, a baixada é toda uma coisa só e, o pessoal brota em tudo quanto parte da cidade.

   Meteu um boné na cabeça, óculos escuros do tamanho da cara e bateu a porta saindo com os chinelões do primo que, apesar de mais novo, era bem maior que ele. Os dele haviam ficado no quarto de onde fugiu as pressas.

   Foi parar na rua principal. Tinha um movimento doido de carros e um bando de gente indo e vindo. Marimba ouviu um funkão que vinha de um lugar não muito longe. E seguiu o barulho.

_ Que parada é essa? Curioso, o moleque foi atrás do som igual aos personagens de desenho animado que vão flutuando na fumaça até chegar à comida gostosa, levados pelo cheiro bom de frango assado ou de um bolo recém saído do forno. No caso dele foi a batida frenético que o fisgou.

   Uma tenda meio trailer, toda na cor rosa, com um monte de caras vestidos também de rosa. O que ele não sabia é que eles estavam fazendo um churrasco. Resolveu chegar mais perto. Quem sabe fazer uma boquinha? Ao se aproximar não pode acreditar no que via. Era um salão de beleza no meio da rua e os caras de rosa eram os cabeleireiros. Então, viu o que estava na churrasqueira saindo de seu posto pra receber o dinheiro de um dos clientes que já ia saindo.

   Os preços eram de irmão. Então resolveu entrar e mudar o visual pra se disfarçar de verdade. Estava, mesmo, com medo de ser encontrado pelos caras.



_Ficou sinistro! Falou pro cara que fez o cabelo dele.

   De luzes bem loiras e um corte moicano, ficou se achando “o cara” com aquele cabelo. Aproveitou o descolorante que sobrou pra pintar a barbicha que estava crescendo. Fez até as sombracelhas aproveitando uma promoção. Tudo isso com o dinheiro que sua mãe havia lhe dado pra ir ao mercado. Mas não teve tempo, já que foi se meter com mulher dos outros, ao invés de ir fazer o que a mãe havia lhe mandado.

   Ficou sabendo de varias coisas no salão. Inclusive que ofereciam curso de cabeleireiro. Mas se interessou mesmo foi pelas festas que rolavam no fim de semana.

   A tia não gostou nada do visual novo, e pensou que daquele jeito o único lugar em que aquele moleque poderia trabalhar era no Black´s coiffeur. Ligou pro Gordão, o dono do salão, que nem era tão gordo assim apesar de tanto churrasco que comia enquanto fazia.  Pediu a ele que lhe fizesse o favor de ajudar seu sobrinho dando uma oportunidade de trabalho. Contou toda a história pra ele. E o Gordão que tinha coração mole, demorou um pouco... mas, logo arrumou vaga pro garoto.

   Marimba já estava trabalhando no salão a quase dois anos, quando num dia daqueles... Salão lotado, churrascão rolando, funk nas alturas, movimento maneiro... Quando viu um carrão parando na porta. Parou pra prestar atenção e ver se era algum cliente dele. Não esperava ver o que viu. Dentro dele saiu a mulher que o fez conhecer a velocidade máxima que suas pernas poderiam alcançar. Ficou mais branco do que pescoço de cliente cheio de talco ao terminar o corte de cabelo. Tentou se esconder. Mas não podia largar o cara ali sozinho, e o serviço pela metade. Ela entrou. E china que era o maior olho grande, foi logo pra cima se oferecendo. Ela nem quis conversa. Marimba continuou de costas pra ela o máximo que pode. Não adiantou. Ela foi em sua direção como quem sabe o que está procurando.

_ Sim?!

Disse ele, só com um aceno de cabeça, e sem se virar.

Ela insistiu.

 _ Eu não te conheço?

Então ele recorreu a única saída que lhe veio a mente. Com voz afeminada respondeu:

_ Eeeeeeeu? Num lembro mona. Deve ser daqui! Respondeu rapidamente como quem não quer muito conversa.

Ela se espantou com a boiolice do rapaz. Mas não se convenceu.

_ Pensei que...

Ele a interrompeu bruscamente falando de um primo muito parecido com ele. Só que de cabelo escuro. E completou:

_ Aquele safadinho...

 Com um olhar perdido e um sorrisinho de quem se lembrava de algo que fizeram juntos.

_Ela se convenceu, e desapontada disse:

_É mesmo?! Pena... (lembrando dos momentos que passaram juntos)

   Só ele sabia o quanto lhe custaria aquela farsa. E ela estava ainda mais gata que nunca. E ali, procurando por ele. Quando estiveram juntos não teve tempo de fazer tudo que tinha vontade. Mas era melhor continuar vivo. Teve sorte. Pois o Macabro, nome pelo qual era conhecido o dono do morro, não teve tempo de ver a cara dele. Fugiu tão rápido, pulando por uma janelinha, ganhando chão num segundo, sem dar tempo do cara pensar.

Não iria arriscar uma segunda vez.

Os moleques não entenderam nada. Sabiam como marimba era pegador. Mas mesmo assim, caíram na pele dele logo que a porta se fechou atrás da mina.

Até hoje eles contam a história tirando uma com a cara dele na frente dos clientes.

Rodar, girar, colocar pra mover















Rodar, girar, colocar pra mover

   Nas primeiras vezes só podia ir da barraca do seu Elói até o fim da rua, o que não dava nem meio quilômetro. Depois de um tempo... _Só até a esquina. Dizia a mãe aos gritos. Dai, já era quase um quilômetro inteiro. A brincadeira preferida era apostar corrida com os colegas. Dos tombos dessa época, nem se lembra hoje em dia. Era como se num houvessem acontecido. Raridade em fases de aprendizado. Até que, por volta dos 13 anos já rodava o bairro inteiro, conhecendo cada rua, becos e principalmente os morros. Os de barro, nos quais adorava subir se imaginando em uma competição de montanha. Adorava sentir o vento contra todo o corpo  quando descia a toda velocidade tirando as mãos do guidão e as levantando bem alto. Igual ao cristo redentor, ou como quem quer abraçar um amigo que chegou de longe. Isso é claro, num dos poucos morros asfaltados do bairro. Nesses momentos se lembrava do filme “Cidade dos anjos” nos momentos antes de a mocinha morrer ao fazer o mesmo num momento de extrema felicidade. Sabia do risco que corria. Mas poucas coisas a faria  sentir-se tão bem. Tudo por aquela sensação maravilhosa. Ah... Delícia!
      Subir na magrela e sair por ai...
    Lila nunca se esqueceria das bicicletas que teve na vida e nem das que já desejou ter. Lembraria de cada uma delas em detalhes. Ganhou a primeira aos cinco anos de idade. O pai quem deu. Aliás, além da contribuição genética era a única coisa que ela lembrava ter ganhado dele na infância. As duas bicicletas seguintes lhe foram das pelo padrasto, que ela acreditava nunca ter andado numa em toda sua vida.
   A primeira era fininha, até as rodas eram tão finas que trepidava toda bicicleta andando nos paralelepípedos da sua rua. De cor verde musgo metálico era bem elegante, mas não combinava com uma pré-adolescente. A terceira parecia um sonho em duas rodas e aros negros de alumínio, pneus grossos de montaing bike, a cor abóbora cheguei chamava toda atenção que uma menina comunicativa necessita, com rajados de sopros finos e  negros como os guidões e a garrafinha pouco utilizada. Acordava no meio da noite só pra ir até a varanda olhá-la mais uma vez sem acreditar que era sua. 
_ Ela é muito linda... ( dizia a si mesma em pensamento).
   Depois de alguns anos, muitos tombos, incluindo capotamento, e cheia de arranhões na pintura e em sua própria pele, resolveu deixar a pobre e já escabufada bicicleta nas mãos do namorado que a transformou em mais uma magrela sem graça pintando-a de... Adivinha que só? Verde musgo metálico. Não sei o que tinha com aquela cor? A tinta deveria estar em promoção ou sei lá o que. Bonita é que não era. Moderna muito menos. Ela nem de longe voltaria a ser aquela de antes. Então foi vendida por um mísero valor, só pra desocupar lugar no quintal. Já tinha ganhado. A última. Que tinha um valor especial. Mas não chegava nem aos pés da anterior. Essa realmente acompanhou Lila nos momentos mais importantes de sua vida. Foi parceira nas aventuras e nas fugas das investidas amorosas menos desejadas. Daqueles amigos que acabavam se tornando chatos à altas horas da noite.
   Dessa vez ninguém mais além da sorte foi responsável por tê-la ganhado. Foi num bingo perto de casa. Foi seu dia de sorte. E também a primeira e única vez que ganhou no jogo. Além da bicicleta, maior prêmio do dia, levou também um rádio pequeno que podia ser ligado na tomada ou usado com pilhas. O que era bem útil já que de vez em quando, principalmente quando chovia, a luz acabava, principalmente na área onde morava. Um lance de transformador que estoura com a ventania. Ganhou ainda um guarda chuvas preto. Passou a acreditar na tal sorte de iniciante. Que só ocorre uma vez na vida. Igual a primeira vez que meditou e entrou em Alfa. Ou pelo menos algo parecido. 
De qualquer forma aquela bicicleta era a prova em quatro rodas de que um dia teve sorte.
   Um dos momentos mais importantes que passaram juntas foi a primeira vez em que viu asfaltada a rua principal de onde morava. Quando saiu de casa a estavam preparando, e quando voltou à noite... Nem pode acreditar. Depois de mais de 20 anos passando por aquela rua que em dias normais era empoeirada, e de lamacenta a alagada nos dias de chuva... Agora lá estava o asfalto. Pulou de alegria. Mesmo não gostando muito do efeito calorento que o tipo de calçamento provoca nos dias de sol, reconhecia que assim seria melhor do que sair de casa com sacolas nos pés, como era de praxe fazer para proteger os sapatos de um fim mais rápido, além de evitar os olhares desdenhosos ao chegar à cidade, ou à escola.
    Com o passar dos anos criou por aquela bicicleta uma relação afetiva. Não seria somente mais um transporte ou objeto qualquer. Havia um sentimento de cumplicidade. E por que não, amizade entre ela e sua magrela?
   Grávida de sete meses, agora Lila olha com saudades, e certa dó, pra sua parceira. Tadinha! Pensa ela ao vê-la coberta com um plástico que a protegendo da poeira, mas não a livra de ficar largada e solitária, num cantinho do quintal sem dar nem um rolézinho a tanto tempo.  Lembra das tardes em que lavava a louça do almoço, correndo, montava na bicicleta e sai disparada depois de ouvir a mãe, aos berros, pergunta onde ele estava indo. Com a bicicleta já em movimento, respondia: 
_ Vou aliiii e já voooolto (também aos gritos). E saia pro seu compromisso inadiável.
   Era um momento particular. Só o fato de dizer a mãe aonde iria poderia destruir o momento intimo entre ela, a bicicleta e o por de sol.
    Subia um dos morros do bairro. A ladeira esburacada pelos dias de chuva deixava sobressalentes os pedregulhos encravados no barro vermelho, ou argila em alguns pontos. Até que chegava ao local preferido,  onde podia ver as montanhas que formam a Serra de Petrópolis e se unem as de Teresópolis, delimitam a fronteira com a baixada. Pra ela o bairro estava num vale. Mais é conhecido como mais um bairro da Baixada. Sentada na grama verde e novinha, sentia a brisa fresca do fim de tarde e apreciava a vista lá de baixo. Sentia-se com num colo de mãe. Protegida por aquela muralha mágica. Apesar de adorar ver o mar, e mesmo que de vez em quando precisar disso, ver as montanhas era sempre uma necessidade. Ao retornar ao bairro, depois de ter se mudado pra zona Sul, se sentia realmente em casa ao ver aquela muralha rochosa.
   Degustava a beleza daquelas rápidas mudanças de cor do céu. Com calma e atenção igual a que tinha ao comer os pudins de leite que sua mãe preparava para a sobremesa em dias de domingo, ficava olhado o as nuvens coloridas passando a cima de sua cabeça. O sol entrando lentamente atrás das montanhas, o dedo de Deus apontado pro infinito, e via a primeira estrela, que mais tarde descobriu ser um planeta. O céu ainda azul claro, escurecendo num degrade com a parte de cima mais escura... Era para o momento mais solene do dia. Assim como o nascer. Quase sagrado. O que não combinava nadada com ver o dia clarear ainda bêbada. Antes de escurecer totalmente descia como uma flecha, pelo lado asfaltado é claro. Nem sempre ia direto pra casa. Aproveitar a inspiração pra conversar com algum amigo. Quando resolvia ir embora. Pra evitar problemas em casa... Lá estava a parceira, prontinha. E em menos de 3 minutos estava em casa. Chegava suada e esbaforida. A mãe, como sempre, perguntando onde ela havia ido. E, inutilmente, sempre a advertia para ter cuidado e não correr tanto. Era como dizer: Corre bastante minha filha. Ela não ouviria esse conselho. Assim como não ouviu muitos outro que sua mãe e outras pessoas mais velhas lhe deram.
   Caiu poucas vezes. Mas só quando teve certeza de que era fera nas manobras. Algumas coisas ela só aprendeu mais tarde, como passar entre a calçada o quebra molas. A rua  em que morava era cheia deles. Mas um dia... O capotamento aconteceu ao passar correndo por cima de um deles porque, como sempre, estava atrasada pra escola. E de tanto bater em buracos nas tais aventuras nos morros, o garfo da bicicleta foi entortando sem que ela percebesse. Até que a derradeira batida travou, definitivamente, a  roda da frente no quadro provocando uma freiada brusca. Estabacou-se de peito no chão. Morava num condomínio fechado cheio de crianças que brincavam soltas, além do calçamento de paralelepípedo, calçamento que mesmo lhe causando problemas na bicicleta sempre foi defendido por Lila. Dizia ela aos amigos e ignorantes: _ Além de não aquecer como o asfalto, permite que a água da Chuva retorne aos lençóis freáticos. Muita gente não entendia e nem queria entender o que ele tais coisas. Era conhecida como 'a chata' ou 'maluca'. Principalmente para os donos de carro. Mas ela falava assim mesmo.
   Aprendeu a cuida de sua amiga com mais atenção.  Colocar graxa e óleo após lavá-la, apertar seus parafusos de vez em quando, levar à oficina quando preciso e, manter os pneus sempre cheios principalmente depois que começou a ir até os postos de gasolina e fazê-lo sem ajuda de ninguém além do aparelho de calibragem de ar. Agradava-lhe mais ainda o fato de não ter que pagava nada por aquilo. Aquilo sim era a expressão máxima da liberdade.
    Apesar de todo cuidado, caiu ridiculamente mais uma vez. Dessa vez por culpa dos cuidados de um mecânico. É que nem sempre se pode confiar no trabalho dessa classe. O cabo do freio foi mal colocado e ao virar o guidão pro lado esquerdo o cabo esticou puxando o freio da frente. Mais um capotamento pra sua lista de tombos. Voou passando pro cima da bicicleta. Foi tão rápido que nem entendeu direito o que havia acontecido. Só ralou cotovelos e joelhos. O incrível é que nenhum dos tombos foi visto por outra pessoa que não ela mesma, que no fim acabava rindo de si própria. Chegou à conclusão de que tombos ocorrem quando menos se espera. Quase sempre é uma surpresa inevitável que nos derruba naquele momento em que se pensa estar agindo com toda prudência. Pelo menos pra Lila costumava ser assim. O tombo mais inesperado ocorreu ainda durante a pré-adolescência. Nem costuma contar a ninguém, de tão ridículo que foi. Estava na frente do colégio, na hora da saída, sentada no quadro da bicicleta conversando com um namorado, que aliás, foi incapaz de segurá-la ao perceber que a bicicleta esta inclinando pra traz. Caiu no chão levando junto sua dona. Que sem ação, acabou pagando um grande mico na frente de dezenas de alunos, que não fizeram por menos. Caíram na gargalhada apontando pra ela. Qualquer coisa era motivo para chacotas e vaias. E aquela situação era um prato cheio.
   Mais tarde, quando foi trabalhar, não muito distante de casa, optou por ir de bicicleta. Ouvindo um som no fone de ouvidos do celular. Empurada pela trilha sonora de uma rádio de música moderninha pedalava por quilômetros na Rodovia Rio Magé . Na ida adorava sentir o suave calor do sol da manhã em seu rosto. Observava os  animais, trabalhadores e a vegetação dos sítios à beira da estrada. De óculos escuros, pra proteger os olhos do sol durante a manhã, e dos insetos ao voltar pra casa no fim da tarde, voava em sua bicicleta. 
Tristes eram os em que tinha de pegar ônibus por causa de chuva ou atraso. Aproveitava pra fez filmes e fotos da estrada, registrando transeuntes, arvores floridas, rios e as mudanças de cor das nuvens, entre outras coisas que via na beira da estrada.  
   Não via a hora em que poderia voltar a circular pela cidade e ter novamente a sensação de liberdade e paz, sem precisar se aborrecer com ao esperar um ônibus ou gastar uma grana alta com taxi. Mas agora necessitará de um suporte a mais. Uma cadeirinha pra levar seu filhote. A maior preocupação é ao recordar que quando tinha uns dois anos, ela mesma, enfiou o pé na roda da frente quando era carregada por sua mãe. Teve que engessar o pé direito e chorou por não querer colocar a botinha. Depois chorou porque havia gostado e não  queria tirar-la e sim colocar outra no pé esquerdo.
   Acidentes acontecem. Ela sabe disso e não tem medo. O medo sim é perigoso. Impede-nos de viver grandes coisas, como patinar, mergulhar profundamente, saltar de pára-quedas, viver um novo amor, cantar em público, furar uma grande onda, aprender a andar de bicicleta, e ter um filho deve ser a maior aventura de todas. 
   Lila viveu muitas dessas coisas e o que ainda não fez, continua em sua lista. O filho vem em breve e encorajá-lo a viver muitas aventuras é um dos projetos. Mas com a segurança necessária. Ensinar a andar de bicicleta vai ser um aprendizado básico para todas as outras coisas, começando pelo comportamento de um ciclista. O Bom exemplo é a melhor forma de ensinar qualquer coisa a alguém. Porém maior mistério mora em... O que será que vou aprender com ele? Se despedindo aos poucos da pessoa que é agora e da maneira louca que andava em sua bicicleta.
  Lila se prepara pra aprender todas as coisas que esse novo ciclo da vida, que não deve ficar parada por muito tempo como as rodas de uma bicicleta, lhe apresentará. Anima. Tem mover, girar, colocar pra rodar.