Irmãos legais
É assim que chamo os Santos Cosme e
Damião. Quando nasci o meu primeiro sinal de vida foi um espirro. Assim conta
minha mãe pra quem quiser e não quiser ouvir. Principalmente na frente dos meus amigos. Eu mesma não lembro de nada. Claro. Mas tenho impressão de recordar, feito um sonho. Mas, de algumas coisas que me aconteceram quando tinha uns dois... três anos me recordo nitidamente. Tenho quase certeza de que as lembranças são só minhas. E não do que me contarão dos outros. Meus tios por parte de pai sempre me contam histórias de quando morei com eles. Porque é assim que se mantem as lembrança vivas quando não se tem câmeras fotográficas e muito menos filmadoras. E quando morei com eles não tínhamos nem luz artificial. Foi exatamente quando tinha 3 anos e é o momento da minha vida que mais me marcou e do qual tenho várias recordações imagéticas. Talvez minhas recordações sejam uma mistura das duas cousas. Mas, do
espiro que dei no dia em que nasci... não poderia lembrar. Talvez se... Não, não
mesmo.
Minha mãe explicou o motivo disso ter acontecido e tive confirmações verosímis e empíricas de sua versão sobre o porquê do espirro. Ao longo da minha infância pude constatar a lógica dos fatos. Foram vários os banhos de chuva de verão que tomamos juntas. Sempre adorei.
O fato é que nasci em maio e minha mãe, como sempre, e talvez por muita felicidade, tinha 18 anos e nessa idade as pessoas são mais felizes mesmo com problemas sérios, tomou banho em todas as chuvas daquele verão antes de eu nascer. Nasci com vários problemas respiratórios. Mas não acho que foi por conta dos banhos de chuva não. Tinha eu catarro no peito. Imagina! Mas acho que tudo isso é por conta de ser uma característica de geminianos. Principalmente nas mulheres regidas pelo signo maldito dos zodíacos. Frívola, sonhadora, dupla personalidade, tendencia a se vestir de forma lúdica e outras tantas coisas mais que já tinha ouvido. Acostumei, sem zangar, a escutar essas e muito mais blá, blá, blás dos que me preguntavam e depois faziam questão de demonstrar algum conhecimento sobre o assunto. Mas me chateou ler isso num livrinho que julgava sério pois se dedicava exclusivamente a cada sígno. Dizia que o aparelho respiratório de tais desafortunados não funciona lá muito bem e que devemos preferir as comidas cosida que esquentam o aparelho respiratório. E as saladas, comida japonesa onde ficam? Em segundo, ultimo ou nenhum plano talvez.
Minha mãe explicou o motivo disso ter acontecido e tive confirmações verosímis e empíricas de sua versão sobre o porquê do espirro. Ao longo da minha infância pude constatar a lógica dos fatos. Foram vários os banhos de chuva de verão que tomamos juntas. Sempre adorei.
O fato é que nasci em maio e minha mãe, como sempre, e talvez por muita felicidade, tinha 18 anos e nessa idade as pessoas são mais felizes mesmo com problemas sérios, tomou banho em todas as chuvas daquele verão antes de eu nascer. Nasci com vários problemas respiratórios. Mas não acho que foi por conta dos banhos de chuva não. Tinha eu catarro no peito. Imagina! Mas acho que tudo isso é por conta de ser uma característica de geminianos. Principalmente nas mulheres regidas pelo signo maldito dos zodíacos. Frívola, sonhadora, dupla personalidade, tendencia a se vestir de forma lúdica e outras tantas coisas mais que já tinha ouvido. Acostumei, sem zangar, a escutar essas e muito mais blá, blá, blás dos que me preguntavam e depois faziam questão de demonstrar algum conhecimento sobre o assunto. Mas me chateou ler isso num livrinho que julgava sério pois se dedicava exclusivamente a cada sígno. Dizia que o aparelho respiratório de tais desafortunados não funciona lá muito bem e que devemos preferir as comidas cosida que esquentam o aparelho respiratório. E as saladas, comida japonesa onde ficam? Em segundo, ultimo ou nenhum plano talvez.
O chato de tudo isso é que fui um bebe doente, vivia sendo levada as preçar pro hospital com febre e toma-lhe injeção. A suspeita era de princípio de pneumonia. Existe mesmo isso? Princípio? O fato é que todos diziam que de tão magra eu parecia
passar fome, quando na verdade minha mãe me enchia de vitaminas, e nada de eu
engordar. Não mamei no peito. Minha mãe secou. Acho que por isso era doente e magra. Garganta inflamada era uma coisa com que convivi por muito tempo na vida. E ninguém merece. Ser boêmia, geminiana, e ter que que ouvir sempre que saia minha mãe dizer coloca casaco, leva guarda chuvas, não pega sereno, vê se chega sedo. Nada disso adiantava. Depois dizia _Viu... Eu te avisei.
Mas bem antes disso, quando ainda era pequena, minha mãe fez um trato com os santos irmãos, Cosme e Damião. Os gêmeos legais que cuidam das crianças. Se eu sobrevivesse ela daria doces. Por alguns anos foi assim... Bem, to viva.
Era muito maneiro! Depois de mais de vinte anos, ainda hoje quando entro em uma dessas lojas de doces lembro das vezes em que ia comprá-los. Saíamos de lá com o carro lotado de caixas de papelão cheios de guloseimas. Maria mole ( chamava de piru de velho), batons Garoto, suspiros, doces de abóbora em forma coração, e muitos outras coisas com muita açúcar incluindo a cristalizada.
Num ano mau minha mãe estava sem grana. Mas não sem criatividade. Então fez bolo de
chocolate. Uma delícia cremosa. Adoooooro bolo de chocolate! Certeza de que foi uma ótima estratégia. A criança da vizinhança caiu matando. E ela não descumpriu o trato.
Depois dos 7, 8 anos eu já podia frequentar as famosas filas de doce na frente das
casas das pessoas que distribuíam doces, nas sua maioria casas de macumba. Lá eu não gostava
muito de ir não. Tinha medo. Mas fazia parte da rota dos doces. Achava o lugar meio sombrio e diziam que os doces vinha com macumba feita. Mas eu ia mesmo assim. Apesar de bem seletiva
quantos aos doces... Gostava mais dos doces de leite, chocolate, e poucos outros. O resto eu dava pros coleguinhas que estavam comigo. Isso me dava moral
entre eles. Eu gostava mesmo era da adrenalina de correr até a casa que estava
distribuindo os melhores doces daquela hora. porque acontecia de terem dois ou mais lugares que distribuem no mesmo horário. Mas já sabia quem eram as que faziam isso a mais tempo e com qualidade. Eu tirava onda de ter me dado melhor do que os outros. Um desse lugares era a Casa da Bia, essa casa era uma fábrica de pipas e ceróis. A Bia era a dona e sempre dava pipa também. Tinha sempre aquele otário que escolheu uma casa ruim e ficava querendo trocar doces menos legais por um, nem que foce só um de boa qualidade.
Considero essa festa popular como um ritual de passagem que prepara as crianças, pobres, pra enfrentarem a
vida adulta. Programação, organização de horários e rota de percurso, Saber que nunca se deve chegar depois da hora que foi anunciada a distribuição de cada casa ( pois o doce acaba rápido,dependendo da casa), saber lidar com ansiedade, Aturar filas e mais filas, Pisões nos pés, impura impura, esperas e expectativas muitas
vezes frustradas. Teve vezes em que agente chegou numa casa que sempre dava e derrepentemente não dava mais. Sem contar o do corre-corre... O dia inteiro.
A parte legal, porém não menos humilhante,
era quando jogavam balas avanço. Era uma muvucada... Uma criança em cima da outra,
cotoveladas na cara, pisão na mão. Mas, na maioria das vezes, todos saiam
vivos. Perigoso mesmo rea pros sem noção que iam pra beira da pista esperar carros que passam distribuindo os saquinhos. Sempre passava no jornal a notícia de famílias que morreram
atropeladas. Ainda hoje quando chega essa época vejo famílias inteiras com muitas criança cometendo essa insanidade. Eu nunca fui, nem precisava. No meu bairro já tinha baste diversão pra mim.
Doido mesmo foi uma vez em que entrei num
Centro de macumba pra pegar os tais doces. Batiam os tambores, rolava uma dança estranha com cheiro forte, hoje sei, de defumador e
haviam umas mulheres de sais rodadas com outra de palha seca por sima, umas coisas doidas que cobriam o rosto, turbantes. Ficavam
dando gritos e gargalhadas, girando ao redor da sala escura... Uuuuui! Minha mãe dizia que era coisa ruim. Sai de lá correndo. Cheia de pavor. Medo que eles me colocassem numa panela como as bruxas fazem com as crianças nos desenhos animados e filmes de terror infantil. Ouvi dizer que lá se fazia feijoada com criancinhas. Preferi não ficar pra ver se era verdade. Pelo ritmo da batucada
certamente o fim da festa estava próximo. E é quando a comida é servida aos
santos. Mas não esperei nem os doces. Não queria ser a comida da vez.
Além do mais, não queria atrapalhar o acordo
que minha mãe havia feito com os irmãos legais. Eles haviam me mantido viva até
aquele momento. Por que eu iria ser ingrata colocando tudo a perder por uns
docinhos?
Hoje
não pego mais os doces, E minha mãe quase não faz nem o bolo de chocolate pra família, e não sei quando exatamente decidiu que não precisava mais oferecer doces em troca da minha saúde. O acordo era entre ela e os irmãos legais. Nunca me meti. Eu nem costumo mais tomar banho de chuva. A menos que ela me pegue no
caminho ou que eu tenha uma pessoa animada ao meu lado que também tope uma
brincadeira. Já estou adulta e morando em apartamento. Além disso adultos não se deixam levar pelo momento. Mas há exceções. Um vez, já com uns 28 anos de idade tomei banho numa chuva de granizo com minha prima. Ela tem quatorze anos a menos que eu e isso foi o suficiente pra eu me convencer de
que ela tinha razão em querer tomar aquele banho gelado. Eu não perderia a oportunidade de ter essa experiência. Sabe
como é...
Uma
bobona sem juízo. Foi como me senti. Mas não é tão mau como pensar em tomar banho numa dessas chuvas
com raios e trovoadas. Ai já é muita doideira. Nem entro em baixo daquela cachoeira que vem dos canos dos telhados. Deve ter de tudo quanto é sujeira de bichos, rato. Sei lá?! Só não abro mão da loucura que tenho por
uma grande e suculenta torta de chocolate acompanhada de uma bela dose de felicidade e gargalhadas. Mesmo que me engasgue. Faz parte, assim como coca-cola que sai pela boca numa cusparada potente e esguicha pelo nariz quando um amigo bobo te faz rir só de olhar pra ele, bem na hora em que você vai engolir a parada. Isso já me aconteceu, com Coca, com água. E de verdade, já me engasguei com chocolate. É sinistro. Aquela viscosidade e você sem conseguir respirar e a pessoa que tá perto nem pensa em trazer uma água, e fica falando um monte de inutilidades do tipo, levanto os braços, abaixa a cabeça, respira... E você desesperado fazendo tudo o que o inútil tá mandando, com medo de morres. Mas uma vez sobrevivi.
Valeu Cosme e Damião. Isso de eu sobreviver deve ser mesmo coisa dos irmãos legais.
