quinta-feira, 14 de março de 2013




Cabelo de Boneca Xuxa

 Encasquetei de fazer quilo... Agora não dava pra voltar atrás. 
   O lugar tava meio escuro, abafado e todo empoeirado. Putiz! Entrei. Decidida... Mas com um frio na barriga. Ninguém se moveu ao me ver chegar. Me senti transparente, quase um fantasma. O ar pesado e o cheiro, de sei lá o que, me embrulhou o estômago. Era uma inhaca de creme pra pentear com a fumaça do secador de cabelo, misturado com esmalte e acetona... Em fim. Qualquer mulher adoraria o ambiente. mas eu não. 
   Era o último salão em que poderia tentar ser atendida num sábado a tarde. Praticamente missão impossível. 
 Depois de ir à três outros, institutos de beleza, e ter recebido sonoros e desanimadores nãos, o desespero falava mais alto do que meu censo crítico. Já havia esquecido do tal amor próprio diante de todo desdenho e total falta de caridade dos profissionais da área
   Minha cara de insatisfação com aquele lugar me fazia parecer ainda mais antipática que o habitual. E minha impaciência não me impedia de olhar tudo em volta com cara de nojo. Tentava, verdadeiramente... Mas não conseguia disfarçar minha enorme vontade de virar as costas e sumir daquele lugar. Estava quase entregando os pontos e assumindo que não teria um belo penteado pra fazer inveja nas outras mulheres da festa. É eu tinha uma festa pra ir naquele dia. E não reservei uma hora em salão algum. Eu não costumo ir à salões. Eu odeio salão! Conversava comigo mesma. Em voz baixa, quando... uma cabeleireira com expressão de desanimo e poucos amigos se aproximou de mim e quase se arrastando, me apontou o lugar onde ela desejava que eu me sentasse. Como se fosse um grande favor que me fazia... sabe? 
   Naquele momento eu estava, definitivamente, nas mãos dela. Consegui. E agora não tinha mais como fugir.
 Brilhavam de longe umas marcas nas cadeiras, meladas de creme de cabelo, nas quais em uma delas eu teria que me encostar. Pior foi aquele forro de napa (imitação vulgar de couro) surrada e rasgada que beliscou a minha bunda do início alfim. 
   Não tinha pra onde fugir. Me sentei tentando não recostar e fui logo dizendo a ela o que desejava fizesse. 
   Só me restavam duas horas para dar um jeito no black, e ir para casa, correndo, sem suar, tomar um banho, sem estragar o penteado, inventar uma maquiagem que me fizesse parecer mais jovem, e disfarçasse a infeliz de uma espinha que resolveu aparecer minha cara justamente naquele dia fatídico. Espinha depois dos trinta anos... só pode ser sacanagem. Ainda por cima teria que colocar um vestido que minha irmã escolheu. Alugou numa dessas casas de roupas pra festas, juntamente com a de todas as outras pessoas da família. Damas de honra, cavalheiros, 8 pessoas no total. Isso pra não correr o risco de alguém se vestisse mau fazendo com ela pagasse um mico (como ela mesma disse). E em fim... Teria que conseguir chegar ao casamento a tempo de pelo menos pegar o amuleto da sorte de toda solteirona. O buquê da noiva. O problema é que, no meu caso, a noiva já era um amuleto, de azar.

_ 17 anos e já vai casa! (dizia a cabeleireira com inveja, dando um tom de pena à voz, pra disfarçar o despeito). Fiquei quieta.      Sendo eu a mais velha, e chamada de encalhada por toda a família nos detestáveis almoços de domingo, é que não poderia aparecer com um cabelo de bruxa desgrenhada. Queria, pelo menos, chamar um pouco da atenção das mulheres mais velhas e encalhadas como eu. 
   Nunca consegui um namorado que ficasse comigo depois de conhecer minha irmã, ou uma de minhas amigas. Todas sempre foram mais bonitas que eu. Ou talvez eu esteja escolhendo mau minha companhias.
   Voltando ao dilema do que fazer no cabelo... Escova japonesa deve ter esse nome porque depois de tanto puxar o cabelos a mulher saia do salão, também,  com os olhos puxados.

_Gosto dos meus olhos do jeito que são... (Disse bem baixinho).

_Prefiro fazer a escova indiana. Quem sabe saio daqui mais Zen.(Falei pra cabeleireira em tom de sátira, tentando tornar aquela situação engraça). Tentando enganar a mim mesma. Tava na cara que aquilo não ia dar certo.

   Até que me caiu bem! O vestido verde que iria usar não me saia da cabeça.  
É... Disfarça minha magreza e realça a cor dos meus olhos. A única coisa que realmente gosto no meu corpo inteiro. (pensava)...O bordado não é lá essas coisas... Mas ela nem deixou eu  dar minha opinião. (fala comigo mesma pra me consolar). 
   Minha irmã é quem escolheu todas as roupas. Já disse isso né?

 Foi quando a cabeleireira saiu,  depois de analisar, por longos 5 segundos, o meu delicado caso. Sem me dizer uma palavra, entro em uma misteriosa salinha, onde pegaria os misteriosos e provavelmente fedorentos, produtos químicos tão desejados pela maioria das mulheres, e  que me deixariam parecida com alguma personagem da novela caminho das índias. Nesse momento tive a certeza de que estava fazendo uma enorme besteira.  Mesmo assim, diante daquela situação de desconforto e medo total, não pude deixar de reparar na bunda dura de  uma novinha que estava lá. Era igual a da mãe. Só que a da mãe era murchinha. As mulheres também reparam nas bundas das outras. E muito... É tristre ver como a lei da gravidade pode ser cruel com algumas pessoas. A mãe é uma senhora que trabalha na cantina da única Escola Estadual do bairro. Dizem que pra saber como  uma mulher vai ficar quando envelhecer é só olhar o corpo da mãe. Mas isso nem sempre é um diagnostico infalível. No meu caso por exemplo, não serve. Sou magrela e minha mãe é obesa, e já era carnuda quando nova. Minha irmã sim, se parece com minha mãe.  Por isso está casando primeiro que eu. Puxei ao meu pai. Na rua onde moramos todo mundo o chama de Seu Vara Pau. Preciso falar mais alguma coisa?

   A cabeleireira, ficou no meio do caminho, e eu lá esperando. Cada vez mais desesperada. ela se distraiu numa conversa idiota com uma colega que havia acabado que chagar da Lan Houre. Casa do Alan como gosto de dizer brincando com essa história de tudo ter nome em inglês no Brasil. Nas primeiras vezes que ouvi falarem nisso, realmente pensava que era esse o significado. Até que vi escrito numa placa. E, continuei sem saber direito o significado. Mas compreendi que é uma casa em que se pode usar o computado, geralmente estrupiado, e  uma internete com velocidade de conexão super lenta, por um valor que me parece desvantajoso pra todo mundo. Já que, cada vez menos se vê estabelecimentos desse tipo por ai.

_ Miniiiina! Quando sentei na frente do computador... Um pen drive esquecido piscava pra mim. Parecia um chamado. Não resisti. Abri... E tinha um monte de fotos dum bando de cara forte com roupa de exercito, só que, tudo sem camisa.( dizia  a amiga esbaforida de tão rápido e excitada que falava).

_Ai... Adoro homem de farda! (comentou aquela que devia estar fazendo o meu cabelo). _ E aia!?( perguntou a cabeleireira desertora).


_ Deixei um recadinho pra ele. Quem sabe? Se rolar um encontro te chamo e falo pra ele levar um amigo. ( gritinhos são ouvidos e logo abafados).
 _ Sente a pressão no nick do muleque: vitinho pqd.boladao@hotmail.com.

    Boladona estava eu. Já sabia que iria chegar atrasada. Mas por experiências anteriores sabia que reclamar só iria pior a minha situação. 
   E o barulhinho do cabelo molhado da cliente  ao lado sendo cortado... Quando caia um chumaço no chão... me lembrava coco de cachorro com diarreia.  Tudo em volta só piorava minha angustia. Então resolvi manter o olhar fixo nos olhos da cabeleireira pra ver se ela se tocava. Funcionou.

   Fiquei naquele ritual insano por mais de uma hora e meia. Quando acabou não sentia meu cabelo na cabeça, só a ardência das queimadas de secador e da prancha. Me sentia muito estranha. Lembrei dos cabelos de uma boneca Xuxa que eu tinha quando era criança. Com um corte reto e franja também reta agarrada na cabeça. A horrível faixa de plástico não deixava que nenhum fio se movesse do lugar. Quando sai do salão foi ainda pior. O vento levantava meu cabelo pra tudo quanto era lado. Corri pra chegar em casa antes que algum conhecido me visse daquele jeito. Onde estavam o controle e a segurança que sempre tive com meu cabelo duro? Sempre no mesmo lugar... Desejei uma faixa igual a da boneca Xuxa. Pelo menos até chegar ao casamento no qual pretendia pegar o buquê e dançar bastante balançando meu cabelo novo. que só duraria até outro dia. Supunha eu.

Foi quando passou uma Kombi, e sem pensar entrai nela, me espremendo com outras pessoas que além de estarem suadas eram super mau encaradas. Por sorte nenhuma daquelas caras era conhecida, e pelo menos, ali dentro, só um lado do cabelo se mexia com o vento que entrava pela janela. Agora respirava melhor. Aliviada. O que eu não sabia é que eram necessárias pelo menos 24 horas pra eu ter passado por toda aquela ventania e agitação. Cheguei em casa parecendo um personagem de humos que tem um lado da cabeça com cabelos cacheados pois puxou pai, e outro liso, que puxou da mãe. Não teve jeito... Molhei os cabelos e fiz um coque bem apertado, com bastante fixador pra que nenhum fio se rebelasse durante a festa. E pra completar o visual, cafonérrimo, tinha bastante glíter de um outro spray que minha mãe fez questão de tacar na minha cabeça enquanto eu tentava me enfiar numa meia calça.

Nunca mais voltei àquele salão dos terrores.
    Minha irmã disse não, na hora do sim. Mas, rapidamente disse voltou atrás.

_Era só pra descontrair (dizia a todos na hora da festa). _Perco o noivo. Mas não poco a piada. 
   Eu, continuei encalhada. Agarrar o buquê? Não consegui chegar nem perto dele. Na hora exata apareceu uma mulher enorme, não sei de onde, que agarrou meu cucurôto com toda  a força e me jogando longe, se colocando na direção exata e conseguindo agarrá-lo no meu lugar. Logo em seguida, foi atropelada por um bando de mulheres desesperadas que caíram matando em cima dela e do tão desejado buquê de flores que, ao final de toda aquela confusão, se transformou em algo destroçado e irreconhecível. Mesmo assim eu continuava pensando... Talvez se eu estivesse com o cabelo lambido e seco a mão dela escorregasse e... na pior das hipóteses, escaparia deixando uns fios de cabelo. De tão fracos e quebradiços que ficaram, era o que certamente aconteceria. Igualzinho aos da boneca que acabou ficando careca de tanto que a penteávamos.        Ao final foi melhor não ter conseguido agarrar aquele buquê inútil. Só de imaginar aquela manada em cima de mim sinto uma pontada de dor nos meus frágeis ossos. Prefiro ficar viva. Mesmo que encalhada. 
   Mas e se... lá no hospital, algum médico bonitão, sozinho, e à procura de uma moça de 30 anos como eu, pra... sei lá?
   E fomos todos felizes para sempre. Eu, minha irmã, minha mães que desencalhou uma filha e a cabeleireira que vai continuar ganhando dinheiro as custas de outras pobres coitadas, iludidas e pressionadas como eu. 


2 comentários:

  1. Qual mulher nunca passou por algo parecido? na verdade conheço algumas que talvez... E se você é uma, quero te parabenizar. Pois está se poupando de muitas frustração e aborrecimentos.

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  2. Esse blog é uma plataforma de descarrego de textos que existem em mim. A quem interessar... Passeie por aqui um dia desses.

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