terça-feira, 12 de março de 2013

Mais um dos textos criados pra Escola Livre da Palavra




Ferrô! Outra vez? Não.


_ Ferrô! Agora eu to ferrado!

   Podia sentir os miolos trepidando dentro da cabeça enquanto ouvia o bate-bate dos dentes, e o chacoalhar do maxilar. Os pés mal tocavam o chão. Um na frente do outro, moviam-se freneticamente em frações de milésimos de segundos. Quase sem precisar de comando do cérebro aquecido pelo sol escaldante de uma da tarde. O corpo parecia flutuar, se deixando levar pela lei da gravidade descendo a ladeira de asfalto novo, negro como as pupilas dilatadas. A expressão do rosto era de terror. A pele vermelha e brilhante sacudia e os beiços molengas, meio abertos, deixavam o ar entrar enchendo as bochechas molhadas do suor que escorria desde o topo da cabeça.

   Depois de correr sem destino por uns 20 minutos pelas ruelas estreitas do bairro, bufando e gruindo como cão sedento, Marimba parou. Mesmo sem poder.  Colocou as duas mãos nos joelhos abaixando a cabeça. Encostado em um muro, refrescando-se com pouca sombra, respirou fundo sentindo o coração quase parar de tão forte que batia. Ao catar o ar afoitamente, com boca e nariz, cada osso de suas costelas podiam ser vistos no movimento das costas magrelas. Estufando e minguando o peito segurou sua figa pendurada no cordão. Era pra dar proteção. Presente da avó materna. Faleceu faz dois anos. Um mês depois do avô João.

Não sabia pra onde iria.

_Se a vó Zéfa tivesse aqui... Tadinha! Desejou o colinho de vó como lhe era de costume em situações como aquela. A mãe era mais capaz de lhe dar uns cascudos pra deixar de safadeza.

   Todo mundo conhecia o moleque magrelo que morava no “Beco do Ó”. Mesmo tendo saída e sendo asfaltada era assim que chamavam a viela onde ele morava.

_Em casa me achariam em dois segundos. Atinou sabiamente.

    Sem vacilar entrou no primeiro ônibus que apareceu. Por sorte este o levou pra casa da tia Dedé, única irmã de sua mãe e ultima parente que permaneceu na cidade depois que o avô e avó paternos morreram. Deixaram uma terrinha em uma cidadezinha do interior a qual ele e sua mãe nunca quiseram se quer conhecer.

O pai foi um dos que se mandou sem dizer pra onde. Disse que iria voltar logo. A mãe espera até hoje. Mas de vez em quando arruma um namorado.

_Só pra distrair... a final ninguém é de ferro. E sabe-se lá o que seu pai tá fazendo por ai. Se bobear já tem até outra família. Dizia a mãe se justificando. Como se precisasse. Pensava que, como todo filho único, o seu também era ciumento. Na verdade Marimba achava mesmo que ela tinha mais é que casar de novo pra ver se largava do pé dele um pouco. Mas não falava nada. Não queria se meter.



    Foi recebido com abraços e sorrisos dos primos e da tia que foi logo o avisando que ali todos tinham que caçar trabalho. Antes mesmo de oferecer uma água.

   A tia e os primos se comprometeram em ajudar na procura de emprogo.

_E nada de se meter com parada errada! Fez questão de avisar a tia.

_ Valeu tia! Pode deixar. Respondeu Marimba com ares de pessoa séria endireitando a postura.

   Depois de merecido banho, dentes escovados com escova do primo, deitou de vagarzinho no colchão mole colocado pra ele no chão do quarto dos meninos. Foi então que parou pra pensar.

   _ Que mina doida! Como que eu ia saber que era mulé do dono da Boca?! Disse ele, ainda procurando explicação pro que tinha acontecido naquele dia louco.

  A mãe ficou sabendo onde o filho estava umas duas horas depois. Diante do acontecido concordou que ele ficasse lá por uns tempos. Mas não deixou de dar uns gritos com o filho, que ouviu tudo pelo telefone, calado e com cara de bolo murcho.

   Não demorou muito e Marimba já estava dando um rolé. Reconhecendo o terreno. Mas sabia que mesmo não estando na sua área poderia ser reconhecido. Afinal, a baixada é toda uma coisa só e, o pessoal brota em tudo quanto parte da cidade.

   Meteu um boné na cabeça, óculos escuros do tamanho da cara e bateu a porta saindo com os chinelões do primo que, apesar de mais novo, era bem maior que ele. Os dele haviam ficado no quarto de onde fugiu as pressas.

   Foi parar na rua principal. Tinha um movimento doido de carros e um bando de gente indo e vindo. Marimba ouviu um funkão que vinha de um lugar não muito longe. E seguiu o barulho.

_ Que parada é essa? Curioso, o moleque foi atrás do som igual aos personagens de desenho animado que vão flutuando na fumaça até chegar à comida gostosa, levados pelo cheiro bom de frango assado ou de um bolo recém saído do forno. No caso dele foi a batida frenético que o fisgou.

   Uma tenda meio trailer, toda na cor rosa, com um monte de caras vestidos também de rosa. O que ele não sabia é que eles estavam fazendo um churrasco. Resolveu chegar mais perto. Quem sabe fazer uma boquinha? Ao se aproximar não pode acreditar no que via. Era um salão de beleza no meio da rua e os caras de rosa eram os cabeleireiros. Então, viu o que estava na churrasqueira saindo de seu posto pra receber o dinheiro de um dos clientes que já ia saindo.

   Os preços eram de irmão. Então resolveu entrar e mudar o visual pra se disfarçar de verdade. Estava, mesmo, com medo de ser encontrado pelos caras.



_Ficou sinistro! Falou pro cara que fez o cabelo dele.

   De luzes bem loiras e um corte moicano, ficou se achando “o cara” com aquele cabelo. Aproveitou o descolorante que sobrou pra pintar a barbicha que estava crescendo. Fez até as sombracelhas aproveitando uma promoção. Tudo isso com o dinheiro que sua mãe havia lhe dado pra ir ao mercado. Mas não teve tempo, já que foi se meter com mulher dos outros, ao invés de ir fazer o que a mãe havia lhe mandado.

   Ficou sabendo de varias coisas no salão. Inclusive que ofereciam curso de cabeleireiro. Mas se interessou mesmo foi pelas festas que rolavam no fim de semana.

   A tia não gostou nada do visual novo, e pensou que daquele jeito o único lugar em que aquele moleque poderia trabalhar era no Black´s coiffeur. Ligou pro Gordão, o dono do salão, que nem era tão gordo assim apesar de tanto churrasco que comia enquanto fazia.  Pediu a ele que lhe fizesse o favor de ajudar seu sobrinho dando uma oportunidade de trabalho. Contou toda a história pra ele. E o Gordão que tinha coração mole, demorou um pouco... mas, logo arrumou vaga pro garoto.

   Marimba já estava trabalhando no salão a quase dois anos, quando num dia daqueles... Salão lotado, churrascão rolando, funk nas alturas, movimento maneiro... Quando viu um carrão parando na porta. Parou pra prestar atenção e ver se era algum cliente dele. Não esperava ver o que viu. Dentro dele saiu a mulher que o fez conhecer a velocidade máxima que suas pernas poderiam alcançar. Ficou mais branco do que pescoço de cliente cheio de talco ao terminar o corte de cabelo. Tentou se esconder. Mas não podia largar o cara ali sozinho, e o serviço pela metade. Ela entrou. E china que era o maior olho grande, foi logo pra cima se oferecendo. Ela nem quis conversa. Marimba continuou de costas pra ela o máximo que pode. Não adiantou. Ela foi em sua direção como quem sabe o que está procurando.

_ Sim?!

Disse ele, só com um aceno de cabeça, e sem se virar.

Ela insistiu.

 _ Eu não te conheço?

Então ele recorreu a única saída que lhe veio a mente. Com voz afeminada respondeu:

_ Eeeeeeeu? Num lembro mona. Deve ser daqui! Respondeu rapidamente como quem não quer muito conversa.

Ela se espantou com a boiolice do rapaz. Mas não se convenceu.

_ Pensei que...

Ele a interrompeu bruscamente falando de um primo muito parecido com ele. Só que de cabelo escuro. E completou:

_ Aquele safadinho...

 Com um olhar perdido e um sorrisinho de quem se lembrava de algo que fizeram juntos.

_Ela se convenceu, e desapontada disse:

_É mesmo?! Pena... (lembrando dos momentos que passaram juntos)

   Só ele sabia o quanto lhe custaria aquela farsa. E ela estava ainda mais gata que nunca. E ali, procurando por ele. Quando estiveram juntos não teve tempo de fazer tudo que tinha vontade. Mas era melhor continuar vivo. Teve sorte. Pois o Macabro, nome pelo qual era conhecido o dono do morro, não teve tempo de ver a cara dele. Fugiu tão rápido, pulando por uma janelinha, ganhando chão num segundo, sem dar tempo do cara pensar.

Não iria arriscar uma segunda vez.

Os moleques não entenderam nada. Sabiam como marimba era pegador. Mas mesmo assim, caíram na pele dele logo que a porta se fechou atrás da mina.

Até hoje eles contam a história tirando uma com a cara dele na frente dos clientes.

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